terça-feira, 18 de novembro de 2014

Uma história em tudo e em todos...

O relógio começa hoje a andar para trás: precisamente daqui a um mês eu estarei num avião para fazer a viagem de regresso à Europa. A minha aventura em Timor-Leste (tão curta que ainda nem me apercebo de como está a chegar ao fim) vai levar na bagagem muitas histórias de sítios, pessoas e situações que eu nunca poderia ter imaginado...Hoje, a contar um mês para o regresso eu quero lembrar algumas dessas histórias.
            
        Um Halloween fantasmagórico...

Outubro foi um mês de loucos, a preparação do evento “World Festivities & Halloween” (dedicado a muitas festividades para celebração dos antepassados e do sobrenatural) deixou-me completamente assoberbada, pelo que me foi impossível fazer o que quer que fosse para além da organização e preparação dos materiais. No dia 31 de outubro, graças à generosidade e ajuda de muitas pessoas, até de Portugal e do Canadá, conseguimos proporcionar a estudantes do secundário umas horas diferentes: começaram por resolver um Quizz com perguntas sobre as festividades do mundo (tinham de encontrar as soluções nos cartazes expostos), depois tiveram pinturas faciais, lanternas feitas de abóboras e melancias, criação e desfile de máscaras, jogos tradicionais, enfim, foi uma manhã repleta de animação. O saldo do evento foi positivo, particularmente porque os Timorenses revelam alguma apreensão para com a tradição de Halloween, que não compreendem nem conhecem ainda bem, mas neste evento, os jovens ficaram a conhecer a diversidade de festejos que existe no mundo, para além do Halloween, e relativamente a esta celebração puderam compreender o que simboliza e o que inclui. Desconstruímos estereótipos e ajudámos os alunos a refletir também sobre a sua própria cultura, e no final, num ambiente de muito maior relaxamento e animação, todos eles se mostraram interessados em participar nas várias atividades, inclusivamente nas pinturas faciais (que tanta apreensão provocaram nos professores que os acompanhavam). Deixo-vos com um vislumbre da exposição e da decoração do evento...
 

 

            As pessoas que cruzam o meu caminho
Cada pessoa que se cruza comigo, cada rua em que caminho, cada árvore que encontro cortada, retalhada ou enrolada em arame farpado têm em si uma história, uma sequência de acontecimentos que os trouxe até este momento mas da qual eu nada sei. Foi isso que pensei numa conversa casual com um taxista particularmente simpático que me trouxe de volta a casa no outro dia. O jovem taxista, que não deveria ter mais de vinte anos eu acho, começou por perguntar de onde eu vinha, e ficou contente por saber que eu era portuguesa. No seu português incipiente contou-me que era de Baucau, mas que tinha vindo trabalhar para Díli, onde é mais fácil ser taxista. Na conversa eu disse-lhe que estudava Tétum e ele ficou muito contente, disse que também ele gostava muito de estudar, mas que não tivera tido oportunidade porque tinha ficado órfão na 3.ª classe e tivera de ir trabalhar. A história dura da sua vida ele contava-a com um grande sorriso e uma enorme descontração enquanto fumava o seu cigarro. Senti um nó. Histórias como esta abundam por aqui... todos os dias, quando espero o transporte para voltar ao bairro, estou rodeada de crianças de todas as idades, mal-nutridas e mal-vestidas, descalças e sem rumo, que circundam nos arredores do Instituto onde trabalho. Os seus risos estridentes contrastam com a agrura da condição em que vivem. As histórias de todas estas crianças e jovens lembra-me sempre as árvores enroladas em arame farpado que existem em muitos pontos de Díli: as suas existências estão confinadas a amarras que as aprisionam sem que elas pareçam aperceber-se. Riem, crescem e sobrevivem cada dia sem perceber que todos os seus movimentos são guiados e aprisionados num arame farpado invisível que traça o seu destino. Timor-Leste ainda vive aprisionado em si próprio, é urgente que se trabalhe para cortar estas amarras. Estou aqui há quase 3 meses, em breve, estarei de partida, mas estas imagens duras e dilacerantes irão comigo e permanecerão. Não sei quanto tempo, ou se algum dia, este país se libertará destas amarras feras, mas com todo o meu ser torço para que consigam, porque este processo é um de crescimento interior, nada do que nós estrangeiros digamos ou façamos vai mudar esta situação, resta-nos abrir os horizontes das pessoas com quem lidamos diariamente e esperar que cada um deles se liberte e incite os outros a fazê-lo também. 

            Matar saudades da Europa, sempre com um twist...
A palavra ‘Saudade’ sabemos bem o quão portuguesa ela é. Aquele sentimento de nostalgia, mistura de tristeza, alegria, esperança e desespero, numa amálgama que nos ata o coração. Para combater as saudades são muitos os remédios a que recorremos. Desde logo as video-chamadas para Portugal/França: nada melhor do que ouvir e ver a família e os amigos para me lembrar o calor que tenho a sorte de poder receber deles. Mas, por vezes, até isso começa a saber a pouco, é nessas alturas que temos de recorrer aos outros sentidos...
Estas últimas semanas tenho procurado sair mais de casa e do bairro, experimentado almoçar noutros locais. Uma das minhas aventuras foi no Hotel Novo Turismo (devem lembrar-se dele, pela magnífica piscina com o simpático crocodilo... podem relembrar aqui: http://timordevera.blogspot.com/2014/09/encontros-imediatos-em-lecidere.html). O chefe do restaurante é Português e a comida que serve é simplesmente divinal! O bacalhau espiritual que provei foi uma delícia para todos os meus sentidos: a apresentação é requintada, o paladar absolutamente fantástico, a textura, a cor, enfim, sem dúvida que a gastronomia portuguesa é uma das melhores do mundo!!! Ainda houve um espacinho no estômago para um Pudim Caseiro de chorar por mais! Claro que esta refeição magnífica, completa com o fantástico design do hotel, o requinte da sala de jantar, as fardas dos funcionários que eu admiro todas as vezes que lá entro, foi um momento de puro prazer. Matar saudades do que nos pertence, mesmo estando do outro lado do mundo, faz-me sentir muito grata.



Mas nem só de comida portuguesa se tem saudades... Andava há uns tempos a querer muito comer uma pizza. Na passada sexta tive oportunidade de ir jantar ao Cast Away, um bar/restaurante frequentado sobretudo por estrangeiros. Fica na marginal, mesmo de frente para a praia, tem um aspeto de bar de praia e um ambiente muito descontraído. Nessa noite deliciei-me com uma pizza Havaina acompanhada por um mojito (que estava demasiado doce porque aqui por estes lados, tudo o que seja de limão leva toneladas de açúcar! E eu esqueci-me de pedir “La masin midar” =Sem açúcar); nem o consegui acabar de tão doce que estava, mas a seguir bebi um Bacardi com sumo de lima (La midar!!!) que estava amargamente delicioso J Tinham música ao vivo nessa noite, por isso ainda tive oportunidade de relembrar algumas músicas intemporais de Jimi Hendrix ou Pearl Jam.


Estas e tantas outras são as histórias que se cruzam, entre-cruzam e emaranham nesta existência que vou vivendo aqui em Díli. A dura realidade contrasta com alguns momentos de deleite e prazer que vamos encontrando em alguns espaços. E assim vai passando o tempo: falta precisamente um mês. 

Matar saudades do Japão em Timor

Apesar de todas as limitações que encontramos em Timor existem coisas que fazem com que esta experiência se torne muito agradável. Uma das coisas que mais me tem agradado por estes lados prende-se com a possibilidade de ter acesso a uma grande variedade de culturas e gastronomias asiáticas, algo que em Portugal, ou melhor dizendo em Aveiro, nem sempre é tão possível de aceder.
Uns dias depois de ter chegado, e sabendo do meu gosto e interesse pelo Japão, sua cultura e gastronomia, um grupo de colegas decidiu levar-me a um restaurante perto do sítio onde moramos. A cerca de 10 minutos a pé (ou 30, dependendo do tráfego nas estradas que temos de atravessar em sprints no meio dos carros, motas...) do sítio onde estou a viver fica um restaurante que se chama “Wasabie”, serve comida Japonesa e Indonésia. A experiência foi muito boa, desde logo achei que os sabores, as texturas e a apresentação eram similares à verdadeira comida nipónica, não sendo aquilo que agora está na moda em Portugal, que são os restaurantes de fusão: em que nenhum prato deixa realmente perceber de onde vem ou a que cultura pertence por causa de tantas alterações/adaptações... (um aparte para dizer que respeito muito os restaurantes de fusão e que já comi muitíssimo bem em alguns deles, só me revolto contra eles quando dizem ser restaurantes de comida do país X ou Z, quando na verdade não o são minimamente! Seria o mesmo que eu abrir um restaurante italiano e servir paella!). A sopa de miso que servem, ainda que um pouco carregada, é muito boa e sempre que a como sou imediatamente transportada para as memórias da minha estadia no Japão e para as saudades de todos os meus amigos por lá. Esta sopa, à qual me foi difícil habituar quando cheguei ao Japão, por ter um sabor tão forte e intenso, tornou-se uma ‘staple food’ da minha vida e, muitas vezes, em Portugal, naqueles dias frios, suspiro por uma taça de sopa de miso para acompanhar a minha refeição.
                         

Fui mais recentemente a outro restaurante Japonês, desta vez dentro do Timor Plaza, o centro comercial de Díli, chamado Gion. Já ouvira falar muito da melhor qualidade que o Gion tinha em relação ao Wasabie, ouvi dizer que os preços eram mais elevados, mas perfeitamente de acordo com a qualidade da comida. Num dia de compras decidi entrar e experimentar. A decoração era claramente a ideia de Japonês por parte de chineses, e percebi rapidamente que eram efetivamente chineses quem geria o espaço, empregando alguns timorenses claro. Sentei-me completamente só no restaurante e comecei a preparar-me para pedir, quando, de repente, passa algo no chão de um lado para o outro, a empregada faz um gesto de olhar na direção daquilo que tinha passado e eu não estava a perceber o que se passava...pois bem, era uma ratazana, uma senhora ratazana para aí com uns 30 cm de comprimento (com o rabo) a correr pelo restaurante. O meu cérebro entrou em ‘crash’: metade gritava “Levanta-te e sai” e a outra metade, observada de perto pelos cerca de 8 funcionários, pensava, “Vá, estás em Timor, deixa-te de coisas”, e no fim deixei-me mesmo ficar e acabei por comer lá. Estar em Timor Leste é de facto uma predisposição para aceitar a vida de forma diferente (mas nunca mais volto a este restaurante... não se o puder evitar!). De qualquer forma, a comida não era má, mas não se destacava da do Wasabie. Os preços também acabaram por ser relativamente parecidos. A única coisa mais positiva foi a possibilidade de beber “Calpis”, uma espécie de refrigerante com leite que nunca encontrei fora do Japão, só por isso, valeu a pena!
Para além da comida Japonesa no Wasabie e no Gion, pude deliciar-me com um bolinho recheado de anko (pasta doce de feijão) numa loja de doces no Timor Plaza. O bolinho despertou em mim o ‘Anko Monster’ que eu sou, ai que saudades de anko!!! Finalmente, no outro dia no Supermercado Lita (talvez se lembrem dele, foi o sítio onde tive um encontro com uma senhora Japonesa e a sua lindíssima filha, que é metade portuguesa também; podem ver a história aqui: http://timordevera.blogspot.com/2014/09/encontros-imediatos-em-lecidere.html ) encontrei uma bebida que, segundo garante um amigo meu americano que vive no Japão desde que eu lá estive, é a cura perfeita para a ressaca: Pocari Sweat. Trata-se de uma bebida isotónica com um ligeiro sabor ‘alimonado’. Neste calor imenso, beber uma latinha bem fresquinha sabe-me melhor do que a muita gente sabe uma cerveja gelada.


     

É tão bom matar saudades das coisas que nos fazem viajar pelas nossas memórias, pois perto ou longe das pessoas, lugares, cheiros e tradições, são as nossas memórias que nos acompanham sempre e que nos fazem sentir ‘em casa’.

(Now in English :P )
I’m sorry for not having the time to write all in English, but a quick summary for those of you who do not speak Portuguese. Living in East Timor has given me plenty of opportunities to recall my time in Japan. There are two Japanese restaurants that I have already tried out and I am particularly fond of the one called Wasabie, which is close to where I live! I’ve also found some products like Pocari Sweat or Calpis. Last but not least, for an ‘anko monster’ such as myself, I was able to eat a snack filled with anko the other day – needless to say I was in heaven! I really miss Japan and every time I find something Japanese or am reminded of my time there, I feel extremely happy!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

My life in East Timor!

To all my dear friends who do not speak Portuguese, I have to apologise for taking so long to include a post in English in this blog. In my previous blog, the one in Japan, I tried to do posts in both languages, but I am so busy here in East Timor that this would be an impossible task for me. So, instead, I decided to give you a “short” summary of my experiences in this new land.
I arrived in East Timor in the end of August, to conduct an English teacher trainer program. I train Timorese teachers of English so that they become teacher trainers, and then I will supervise their training courses to other Timorese teachers. Besides that, I also provide pedagogical support to teachers of English in a public school, called “4 de Setembro” High school. After the independence of East Timor there has been a full revision and creation of curricula for all disciplines and levels of teaching, led in cooperation between Portuguese Universities and the Timorese government, particularly the Ministry of Education. The University of Aveiro was responsible for designing the curricula for all High school levels, as well as for the design of the course books and teachers’ guides for each discipline. The design of the English language course was actually developed under the coordination of one of my former professors while I was studying at the University of Aveiro. My job here, continuing the work done by the previous English trainer, is to help the Timorese teacher trainers understand the new English curriculum, the Students’ book and Teachers’ Guide, in order for them to pass that knowledge on to their colleagues from other districts of East Timor. Of course, a great part of my sessions is spent reflecting on pedagogical issues together, in order to adapt all the scientific knowledge to the reality of this context, which is very rewarding because I learn a lot from my trainees in these discussions. My work is going well, my trainees are only 6 but they try hard and we have interesting discussions in our sessions. We are currently studying about Travelling and Mobility, which I believe is a very interesting subject for all of us. The schools in this country face significant challenges (some do not have electricity yet; some have no tables or chairs, recently I heard of one where the roof fell and there can be no classes when it rains), so we must be very precise in adapting all of our teaching methodologies in order to present alternatives for the teachers.
I am living in Dili, in a closed condominium with other teachers from Portugal. The place where I live is quite nice, the Timorese people here treat us very well and are friendly. I also love this place because there are plenty of cats here (not particularly domestic, so I can only look at them!) and one of them just had two kittens, they are so cute! The other day, while cooking and chatting at dinner time, we had a spectacular opportunity to watch a lunar eclipse, a phenomenon called “Bloody Moon” since the moon becomes red for being in the shadow of the Earth. It was an amazing phenomenon, but the rituals it originated in here were even more amazing. Shots, people banging objects against poles and other metal objects, shouts and loud noises from everywhere startled me, because I had no idea of what was happening. East Timor is still quite a superstitious culture and phenomena like this lunar eclipse are looked upon with both wonder and fright. I was later explained, by colleagues who have lived here for years, that the same behaviours happen when there is an earthquake. My trainees also explained that phenomena like this eclipse is considered a bad omen, so they make the noise to scare away the bad luck. As for earthquakes the explanation is even better, so Timorese people believe that an earthquake means God is sleeping and must be awaken (traditionally, God is believed to be holding the Earth in His hands, and when God falls asleep the Earth shakes, so by causing loud noises and waking God up, the Timorese help Him re-establish the balance of the Earth – I thought it was a great interpretation for earthquakes, I can even picture God, just like Atlas in the Ancient Greek Mythology, holding the Earth!).
The fauna and flora of East Timor are quite different from all that I was used to. Besides the crocodiles, that have a special place in the habits, traditions and the culture of this country, which is dearly called the land of crocodiles (I still haven’t seen any, only statues and other artistic representations!), other animals are quite unusual too. After arriving I was told of the ‘Teki’ and the ‘Toké’, the first are quite common in our houses, they are both reptiles, but the ‘teki’ are quite small, like a baby lizard, but of a skin-brownish colour. They have small hands and feet that look very delicate – I find them cute, and the best thing about them is that they eat insects! In a country where Dengue and Malaria are still common, having ‘tekis’ that eat insects is great! The ‘Toké’ I haven’t seen yet. I’ve heard they are bigger, maybe big like komodo dragons, or a little bit smaller than those. The other day I went to a dinner party in the Timor Hotel (a fancy hotel in here, where Portuguese food is served and therefore is a meeting place for the Portuguese community) and I was told by my colleagues that the restaurant of the hotel had a ‘Toké’ living there. The staff would even leave the food leftovers in the restaurant area for it to eat. They seem to really respect it. I found that quite amusing. Buffaloes, cows, chickens, ducks and particularly goats can be seen everywhere, even inside the school grounds, so I’ve become used to them. The trees in here are quite unique but I do not know much of their names so far, some I believe are from the same family as the Palm trees, but others are quite unique. One of the most beautiful trees is called “frangipani”, and I recently discovered that they also exist in Mozambique, but that their flowers are slightly different (in here the petals are mostly white, with only a bit of yellow inside, and their shape is rounder at the edges; whereas in Mozambique, the petals are pointy at the edge and are more yellow). I love the trees here, even more than in Portugal, because there is so much sun and intense heat that only the shaded areas are bearable during the day; I also particularly love the trees at the beach, because I can hide in their shades and relax.
I haven’t left Dili much yet, but the other weekend I went to Maubara, a city in the coast, west of Dili. It was a pleasant place and I even bought some traditional arts and crafts, but the journey to get there was like riding a rollercoaster. I totally understand why all people drive Jeeps of similar 4by4 vehicles. A big portion of the road, as far as Liquiçá, is under repair and construction, so literally we have to drive off-road through rocks and sand. The dust in the air prevents us from seeing as far as 50 meters ahead and the jeep kept on shaking all over, so by the end of our trip we were all quite exhausted and had back-pain. Nonetheless, it was a great day, quite an adventure!
I’m slowly adapting to my life in Dili, I can already cross the chaotic streets where cars, motorcycles, ‘microletes’ (small vans that take people from place to place, short distances), ‘biscotas’ (bigger vans that take people from place to place, longer distances, even to other districts) and even animals running keep moving in unpatterned motions. I am getting used to stares of people because of my ‘foreignness’ and can even have small chats with children on my way to work. This life is becoming normal to me, but I must confess that I am still dealing with my insecurities towards the physical proximity that people here seem to consider normal (sometimes I feel my personal space is being invaded, and that makes me uneasy), and also, although I understand it is just a greeting and that it requires no answer, I still feel unsure about all the strange people who insist on asking me where I am going, or where I’m coming from (in Tétum, one of the two official languages of East Timor – the other is Portuguese – people normally say the equivalent of ‘Good morning…’ and then ask ‘Where are you going’, which for me is still a bit confusing because I feel it is a small invasion of privacy; but my Tétum teacher, who is a very nice and calm man, explained to us that no answer is actually required, so in reality there is no invasion of privacy! I just need to get used to it!). I avoid walking alone, especially at night, since safety can be quite an issue for a woman, or even a small group of women, alone, but during the day I haven’t had any unpleasant experiences so far.

Dili has many beautiful views, but the beaches are a major tourist attraction. I must confess I have mixed feelings towards going to the beach: on the one hand I prefer it here, since I can be in the shade of trees and the experience is a lot more pleasant to me; on the other hand, going to the beach may also mean being surrounded by so many children and teenagers trying to touch and talk to you, while at the same time being VERY observed by male adults…which, let’s face it, is quite overwhelming (and borderline rude), so I’ve only been there a couple of times. Besides that, it is not easy to go if one does not own a vehicle, like a car or a motorcycle, since taxis can be quite rare in those parts of town. My adaptation to this issue is still quite incipient, but the views do speak for themselves, and are absolutely gorgeous!
 So that you can have an idea of what reality is like for me, I leave you with a small photo-video. Hope you enjoy ;)

domingo, 12 de outubro de 2014

Eclipse lunar – as superstições saiem à rua

Estava eu descansadamente a falar por skype com a família e, eis que, quatro sons de fazer gelar o sangue nas veias se fazem ouvir. Ingenuamente eu digo quase para os meus botões “Será que são tiros?” E depois penso que estou a extrapolar demasiado, e dispenso essas ideias ao pensar que há sempre obras a acontecer no Ministério da Educação, por detrás do meu quarto (lugar de onde os sons pareciam vir). Continua-se a conversa à distância de um clique e no meio de risos e saudades a serem mortas sou interrompida para ver um fenómeno único a acontecer nesse momento. A lua no céu veste-se de vermelho sangue e quase mais não é do que uma mera sombra gasosa da sua forma cheia. O céu é escuro e a ausência de luz contrasta fortemente com a magnitude de ruídos que se faz ouvir. Metal a bater em metal, mais sons ritombantes, enfim, um verdadeiro chinfrim. Explicam-me, que sou nova nestas bandas, que se trata de um ritual de superstição que os Timorenses cumprem quando se dão fenómenos naturais tal como aquele que presencio agora (mas também quando sentem tremores de terra). Descansadamente, pessoas bem mais acostumadas a esta terra do que eu, explicam que efetivamente os sons que eu achei ter confundido com tiros, muito provavelmente o seriam! Nada a temer, no entanto, tratava-se apenas de uma expressão ritualesca face ao eclipse. Registar este momento de estranha beleza e misticismo é que prova ser realmente um desafio, já que as máquinas fotográficas e afins se recusam a capturar a cena em toda a sua magia e, ao invés disso, limitam-se a apresentar um céu negro e limpo. Fica a imagem na memória, da lua a vibrar em tons vermelhos-alaranjados, daqueles que se lêem pela pena de Shelley, Stocker ou Poe – com a imaginação a funcionar, no meio dos ruídos e das populações em êxtase de euforia, quase seria de esperar que os morcegos que nos sobrevoavam se transformassem em hipnotizantes vampiros... Mas, alás, nada disso teve lugar se não nesta minha imaginação tão influenciada pelas penas da literatura gótica...

Lua completamente na sombra da Terra

Visita a Maubara

Durante um fim de semana, quatro aventureiros entraram num jipe e rumaram a Maubara, um local de polaridade inversa de Díli. Maubara fica a cerca de 2 horas de distância da capital Díli, para Oeste, também junto da costa. Para lá chegar, passa-se por uma terra cujo nome eu já ouvi muitas vezes, Liquiçá, mas onde nunca tinha passado. Nós, os quatro aventureiros, mergulhámos de cabeça na montanha-russa que é a estrada entre Díli e Liquiçá e, agarrados com unhas e dentes a tudo quanto existia no Jipe, navegámos os baixos e os altos de uma estrada de terra batida, que em muitos lugares mais parecia um cenário de filme de ficção científica no espaço, quiçá, nalgum planeta de clima desértico...
Sair de Díli foi, para mim, uma experiência muito enriquecedora. Pude, pela primeira vez, observar uma riqueza de flora e fauna que ainda não conhecia e tomar contacto com pequenas vilas, aldeias e aglomerados de população, cada qual com as suas formas de construção típicas. Búfalos, vacas, porcos (que mais parecem javalis, ainda que sem as presas), galinhas, patos e uma imensidão de cabras foram polvilhando as paisagens rodeando a estrada onde circulávamos, em alguns lugares a não mais de 2km/h. Em Tétum, cabra diz-se ‘bibi’ e eu fiquei a saber, aliás eu vi em primeira mão, o quão suicidas as ‘bibi’ são por estes lados. Com carros a circular e motas a serpentear no meio deles, Biscotas (carrinhas grandes com lugares sentados que fazem o transporte de passageiros entre distâncias longas) e Microletes (carrinhas pequenas que fazem o transporte em distâncias pequenas), estas insanas criaturas jogam-se para a estrada sem pensar nas consequências!!! É realmente uma sorte que ainda tantas delas estejam vivas... Na viagem de regresso, uma imagem ainda mais mirabolante: o camião a molhar a estrada (para acalmar a poeira, já que a estrada é de terra batida) criava pequenas poças de água no lugar dos buracos existentes, então as ‘bibi’ (certamente desesperadas com sede) iam para o meio da estrada beber a água dessas poças e não se desviavam nem quando os carros se encontravam prestes a tocar-lhes no pêlo. Tivemos mesmo de parar para não atropelar uma das ‘bibi’, que, despreocupadamente, continuou a beber a sua água como se nada fosse!
De Liquiçá em diante a estrada é fantástica, o pavimento é novo, tem linhas pintadas, sinais de limite de velocidade e aproximação de passadeiras e até as passadeiras pintadinhas! Enfim, um luxo!!! Claro que esta parte do percurso decorreu de forma muito rápida, com o Jipe a conseguir atingir uns estonteantes 90 Km/h (infelizmente estávamos em incumprimento, já que o sinal de velocidade indicava um máximo de 60km/h, mas também só andámos mais do que isso cerca de uns 300 metros – depois apareceram ‘bibis'!!!
Almoçámos num bonito forte, reminiscente da ocupação Holandesa, agora transformado na sede de uma Cooperação, chamada 'Mós Belle', com um restaurante, uma lojinha de produtos típicos e um grande jardim com bancos e cadeiras para repousar à sombra das árvores. Durante o nosso tempo lá, pudemos ouvir Xutos e Pontapés, GNR e Michael Jackson ;) A comida estava ótima, todos estávamos com fome, o que poderá ter potenciado o sabor, mas não creio. Eu comi uma espetada de pedaços de frango com caril em volta e cebola, fritos numa massa crocante envolvente – fazia lembrar os ‘corn dogs’ americanos, mas numa tonalidade mais laranja. A acompanhar bebi um sumo de tamarindo, que só pecou por vir com muito açúcar (uma nota: em Timor, tudo que é bebida vem com imenso açúcar, a menos que se peça estritamente sem ele! Da próxima tenho de pedir sem açúcar, mas primeiro tenho de confirmar com o professor de Tétum como devo pedir).
Depois de revigorados com o almoço, sentámo-nos e apreciámos uma belíssima prainha num relaxante bar à beira-mar. Um ambiente que me fez lembrar as esplanadas de praia em Portugal, adjuvado pelo facto de eu estar a beber uma Água das pedras, limão e chá-verde. O ponto alto da nossa visita foi logo de seguida, com uma romaria pelas cabanas junto à praia onde as pessoas fazem e vendem produtos regionais, uns de palhinha, outros com o tecido mais típico de Timor, que se chama Tais (é às risquinhas, muito colorido, e a coloração vem de pigmentos extraídos de produtos da natureza de cada região, pelo que são sempre diferentes!). Comprados os ‘recuerdos’ da nossa aventura, voltámos a entrar no jipe para mais uma sessão de montanha-russa. Foi uma viagem com misto a Feira Popular. Deixo-vos um pequeno filme da belíssima Maubara. 

sábado, 27 de setembro de 2014

Hoje, olho o passado e imagino o futuro

Faz hoje exatamente um mês que aterrei no aeroporto de Timor, aquele sítio que não me pareceu um aeroporto e em que percebi que a minha realidade iria ser substancialmente alterada! O tempo voa demasiado rápido, não sei bem para onde vai, mas corre sempre, sempre. Tal como sentira no Japão, vejo-me novamente como o Coelho Branco de relógio em punho a dizer “A minha rainha, a minha rainha”... (se tiverem curiosidade poderão ver essa história aqui: http://nihondevera.blogspot.com/2008_11_01_archive.html)

Há uns dias parei, olhei para o calendário e percebi como realmente tudo muda e passa rápido.Quinta-feira, 11 de setembro de 2014. Parece incrível como o tempo passa rápido. Ainda há anos estava em casa a ver as duas torres a colapsar, arrastando para a morte milhares de pessoas de tantos países diferentes, e aqui estava eu agora, em Timor Leste, a acabar a minha primeira semana de formação. Para além da formação, que dou a professores formadores de Inglês, tenho também um horário de apoio aos professores de Inglês na Escola 4 de Setembro, uma escola junto do INFORDEPE, onde dou a formação.
Entrada do INFORDEPE
Escola 4 de Setembro, Díli




















O balanço dessa primeira semana foi bastante positivo, o que, para mim, nesse 11 de setembro teve um gosto especial. A toda a volta a destruição dá lugar a uma nova vida, seja o fogo que fertiliza as terras na Austrália, seja Hiroshima renascida das cinzas de uma bomba atómica... a toda a volta a Natureza diz-me que é possível recomeçar de novo, mais fortes, mais ricos e melhores.
Como é então uma semana típica de trabalho em Timor Leste? Bem, todos os dias tenho ou a formação no Infordepe, ou o apoio na 4 de Setembro, ou ambos. Agora estou também a iniciar o estudo de Tétum, pelo que tenho aulas duas vezes por semana. Ainda só estou a iniciar, mas o sistema linguístico parece-me muito compreensível e simples (em comparação com o Português!), notei inclusivamente algumas pequenas nuances que me pareceram idênticas ao Japonês, mas terei de aprofundar o estudo para ver se o serão realmente. De casa para o trabalho temos quase sempre transporte, umas carrinhas assim bem experientes que balançam nas estradas, sobretudo nas partes de terra batida...cintos? Para quê?!?
As nossas fantásticas carrinhas

 Estas pequenas deslocações são sempre aventuras: carros a espremerem-se em ruas estreitas e com grandes valas de esgotos de cada lado, pessoas a andar por todo o lado, as gincanas das motas, as corridas dos galos a atravessar as ruas...enfim, nunca deixam de me espantar! O meu trabalho decorre dentro de uma rotina que já me começa a parecer normal e tenho ficado positivamente surpreendida com a participação dos formandos. Os professores do apoio nem sempre aparecem, mas 3 deles começam já a ser assíduos. Num país que ainda está no seu início, numa sociedade com regras tão diferentes, há algumas barreiras que nem sempre conseguimos transpor. Ser mulher, ser jovem, ser ‘malai’ (estrangeiro/a),...estas e muitas outras circunstâncias podem ser fatores que condicionam a nossa receção. Não é nada de extraordinário, e muito menos delimitado a esta realidade. Tudo isto faz parte da nossa profissão e formação. É necessário ter sempre presente que estamos num país de diferentes costumes, de diferentes ideologias e que temos de nos adaptar à realidade, em vez de esperar que a realidade se adapte a nós.
Até agora as sessões de formação que dei têm-me dado ânimo. Decorreram sem incidentes, os formandos conseguiram discutir ideias, partilhar sugestões, refletir em conjunto sobre vários temas (gestão de aula; forma de conduzir diversas atividades...); a língua inglesa foi suficiente para assegurar a intercompreensão e, creio, que estamos a conseguir trabalhar em conjunto. O tema da unidade em estudo também ajuda, já que falar de Mobilidade e Viagens é sempre um tema que parece agradar. Dificuldades científicas e pedagógicas não faltam neste sistema de ensino, as limitações que estes professores enfrentam diariamente nas suas escolas vão para além daquilo que podemos imaginar (imaginem-se escolas sem eletricidade, em que uma atividade tão banal em Portugal como ouvir um texto áudio na aula se torna impossível; imaginem-se alunos sem livros, que para estudar têm de ir buscar exemplares à biblioteca e que os partilham só durante a aula; imaginem-se turmas de mais de 50 alunos, em salas fantasmagóricas, de vidros partidos, quase sem cadeiras ou mesas, pó e terra por todo o lado; galos, galinhas e até cabras a circular livremente pelo recinto escolar...enfim, realidades que não conhecemos minimamente!). Infelizmente, a minha turma teve problemas com a sala que nos estava destinada. Por isso tivemos de nos adaptar: agora as minhas formações são dadas num hall de um bloco de formações, improvisámos umas divisórias com estantes, o quadro está em cima de um armário de gavetas e os alunos sentam-se ao redor de uma grande mesa de madeira.
"Sala" de Formação de Inglês :)
Apesar de ser um espaço improvisado estamos a habituar-nos a ele e, pouco a pouco, estamos a torná-lo mais nosso, personalizando-o com trabalhos e imagens, acho que lhe poderemos chamar “Our English Corner”!
O ser humano adapta-se a tudo. Nunca deixa de me impressionar esta capacidade, esta força que nos faz habituar a tudo. Também eu me estou a habituar aqui, lentamente. Já se torna mais fácil circular nesta cidade desconhecida, já consigo atravessar as ruas apesar dos movimentos serpenteantes de carros, motas, carrinhas e afins... Já me habituei aos olhares, aos ‘Bons dias’ e ‘Boas Tardiiiiis’, aos cuidados com os mosquitos (felizmente ainda estamos na época seca, em que há menos!).
No breve mês desde que cheguei já houve progressos notórios. Junto da Escola 4 De Setembro a grande estrada era de terra batida (que iam molhando durante o dia, mas que mesmo assim a cada passagem de carros, carrinhas e camiões, se desvanecia em núvens de pó e terra a voar em todas as direções. Chegar até à escola era penoso. Respirar tornava-se quase suicida! Agora finalmente está a ser alcatroada e a paisagem alterou-se significativamente para melhor!!!
Estrada antes de ser alcatroada

Estrada ao fundo, já depois de alcatroada (sem poeira!)






























Eu tenho por hábito trazer écharpes para poder tapar a boca e o nariz, mas mesmo assim, toda essa poeirada estava a dar comigo em doida! Para a escola, nas condições em que temos de trabalhar, só me atrevo a vestir calças de ganga e calçar botas de montanhismo. Os meus colegas riem. Eles andam com tecidos mais leves e até de sandálias, mas eu não me consigo imaginar neste lugar assim. 

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro



































Suporto bem o calor, transpiro um pouco mais, mas sinto-me mais segura assim, por isso acho que vou continuar a ser uma ‘strange legal alien’. Quando chego à sala de trabalho da escola, começo o meu ritual: limpar a mesa onde vou trabalhar com papel, limpar a cadeira onde me vou sentar, limpar ainda o balcão onde vou colocar a mochila, tirar a base de plástico que comprei para pôr por baixo do portátil, limpar o portátil e, finalmente, começar a trabalhar. Não sei se o tempo me fará quebrar este ritual, imagino que a habituação e a adaptação também passem por aí, mas para já, estes rituais fazem-me ter a ilusão da segurança e do controlo e deixam-me menos ansiosa. Mas sabem? Existe um aspeto positivo de ter uma sala com janelas partidas ou inexistentes: todos os dias tenho a companhia de passarinhos enquanto trabalho, divirto-me a vê-los aos saltinhos no chão e pelas mesas. Nem tudo é só bom ou mau!
Não se percebe bem, mas está um pássaro no balcão por trás da mesa com o pano azul.
O bairro onde vivo é agradável ainda que, como habitual, vá tendo os seus problemas pontuais. Ultimamente é o sistema de canalizações que não se encontra tão bem, pelo que uma equipa tem andado a trabalhar para ter tudo melhor antes da chegada da época das chuvas. Existem muitos gatos no bairro, uma das gatinhas teve bebés. Vi-a há uns dias, descansadamente a dormir por baixo de um jipe, com um dos bebés a dormir enrolado junto da barriga dela. São uns fofos, mas não são propriamente domésticos, pelo que não lhes posso tocar. Contento-me a vê-los, na sua liberdade de gatos, em que tudo o que são só a eles pertence. 
O Bairro de Vila Verde
















Os gatos do bairro :)
















Pois é, já passou um mês desde que cheguei a Timor Leste. O tempo realmente foge-me fugazmente, bem que tento mas não o consigo apanhar. Isso é o que demais presente tenho em mim hoje. Desde que cheguei já aconteceu um turbilhão de coisas, já conheci, vivi e experimentei muitas coisas, emoções, situações...mas continua a parecer que ainda ontem estava na minha casa em Portugal a imaginar como seria a vida nesta realidade. Agora estou aqui, estou bem, sinto que esta experiência me vai fazer crescer e tornar-me uma pessoa diferente. Não gosto da ideia epicurista do Carpe Diem, mas estou a tentar viver sem pensar demasiado no futuro, vamos andando e vendo ;) Hoje é o Sting quem me acompanha, e como ele também eu sou uma “... legal alien” só que eu sou uma Portuguesa em Díli (poderão ouvi-lo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=d27gTrPPAyk)
Eu estou aqui: em Timor Leste!



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Um mês: a partida

Faz exatamente um mês que saí de Portugal. Para assinalar esta data gostaria hoje de partilhar algo que escrevi no ano passado, por volta desta altura. Trata-se de um texto que escrevi a convite de um núcleo de uma organização internacional de solidariedade social, chamada curiosamente de Academia do Bacalhau. Neste texto, procurei refletir sobre o significado de ser Cidadão do Mundo, e hoje, mais do que nunca, as palavras que escrevi renovam todo o seu sentido. Peço desculpa por ser um texto longo!

“Cidadão do mundo
No outro dia, a conversar com uma amiga e o seu pai, disse-nos ele “Eu sou um cidadão do mundo. Não sou Português ou Espanhol, sou um cidadão do mundo”. As suas palavras ressoaram na minha mente durante todos estes dias e isso levou-me a questionar o significado daquilo que ele dissera.
Sei que viajou extensivamente, que viveu realidades e culturas distintas, mas tantas outras pessoas também o viveram e, no entanto, nunca nenhuma delas afirmara algo assim sobre si próprio(a). Não, ser cidadão do mundo tem de envolver bem mais do que isso, mas de certa forma acho que cheguei a compreender o que ele queria dizer.
Sou hoje uma professora de línguas formada há vários anos, mas, por força das circunstâncias, vejo-me ainda como uma ‘jovem’. Não pela minha idade, que não é muita, é certo, mas sobretudo porque para se ser ‘jovem’ como eu sou, e tantos outros que conheço, a definição incide mais sobre uma certa incerteza existencial contínua. Sou jovem demais para pensar em formar uma família; sou demasiado jovem para poder assumir a responsabilidade da minha vida ou para ser independente dos meus queridos pais, sou ainda muito jovem...uma jovem de 30 anos qualquer dia, um caso absolutamente típico nos nossos dias. Mas ao longo destes anos tenho vindo, cada vez mais a questionar esta circunstância da vida dos nossos tempos: ser cidadão do mundo.
Como o pai da minha amiga, também já vivi fora de Portugal, fora desta conchinha onde nasci e cresci, nesta terra à beira mar que se orgulha do mar e da ria, que se orgulha de ser terra de bravos homens de mar e de corajosas mulheres da terra. Desta minha terra de que sempre ouvi dizer que é a terra do fiel amigo, esse nosso bem conhecido Gadus Morhua, a que tão ternamente em Portugal conhecemos como Bacalhau. Curiosamente, é este fiel amigo quem me ajuda a compreender o que é ser um cidadão do mundo.
Toda a minha vida tive um orgulho enorme de ser de onde sou. Ainda hoje tenho aquele brilhozinho nos olhos quando digo de onde venho, e as palavras saiem da minha boca com um impacto diferente das demais. Este orgulho vejo-o e percebo-o em tantas pessoas que me são próximas, inclusivamente no meu querido pai que nunca desejou viver noutra terra que não esta, e hoje se vê a viver bem longe dela pela também força das circunstâncias. Eu, pelo contrário, sempre sonhei com viagens e outros mundos. Desde cedo que queria embarcar na descoberta de outros sítios, outras culturas e outras realidades. Mas contactar com coisas diferentes pode abalar as nossas convicções e aquilo que temos como certo, resta saber se esses abalos são negativos ou positivos, ou se isso sequer importa!
O meu primeiro grande terramoto neste etnocentrismo que carregava em mim, deu-se aos meus 9 anos, com o início da aprendizagem de uma nova língua, uma que era estrangeira, e que, segundo minha escolha, era o Inglês. Tudo nesta língua era diferente daquilo que eu tão bem conhecia... tudo era tão diferente, mas nunca me pareceu estranho. Nesta língua, quando a vesti, aprendi que o mundo não precisa de estar sempre dividido em Masculino e Feminino; a palavra ‘friend’ não implica se é amigo ou é amiga, só importa o laço de amizade com que connosco alguém teceu. Esta constatação foi maravilhosa nos meus olhos, e vesti o Inglês como nunca mais consegui, até hoje, vestir nenhuma outra língua – à exceção claro está, da minha própria pele que se chama Português.
Dois anos mais tarde, o meu mundo torna a ser abalado, mas desta vez o abalo tocou-me num ponto particularmente sensível. O Mar, este elemento tão caro ao meu coração, este elemento que tanto (des)une os meus conterrâneos, esse mar que tão Português é, que até o seu sal proveio das lágrimas lusitanas, o meu mar deixava de ser masculino e diziam, passava a ser feminino. La mer, dizia-me o Francês e eu não gostei. Achei que não tinham nada que alterar o género do mar; uma coisa é não ter género, mas alterarem aquilo em que eu sempre acreditara chocou-me! Quiçá não terá sido essa a grande razão para a minha resistência a essa língua... Aprender línguas vai-nos dando pequenos terramotos que, como disse, abalam as nossas convicções, que deturpam aquilo que para nós é tão certo... e por isso mesmo, aprender línguas estrangeiras é uma experiência de humildade (disse-me um grande professor americano, de seu nome Fantini), e esse é o primeiro grande passo.
Tudo o que é diferente causa em nós um sentimento de insegurança. Não nos revemos, e esse não se rever, não saber o que o Outro é, pensa, faz, quer... esse não saber, causa em nós um medo que nos acorrenta. Já bem consciente da existência no mundo de culturas diferentes, depois de ser já durante anos uma discípula assídua de novas línguas, literaturas e culturas (sobretudo pela minha educação superior em Ensino de Português e Inglês), parti, no meu terceiro ano da universidade, para uma das maiores aventuras da minha vida: ser Erasmus. Como Erasmus de Roterdão, também eu rumei a outro país para aí aprender coisas novas. Southampton acolheu-me de braços abertos e nela me senti mais viva, mais adulta e mais eu do que até então. Erasmus foi a minha bolha, vivi fora mas dentro de uma cultura que em muitas coisas se assemelhava com a minha. No entanto, alturas houve em que fui testada nos meus limites da aceitação do Outro, e sobretudo na aceitação da Diferença... Lembro o episódio curioso da minha chegada à cidade. Saída de um avião em Londres, e depois de uma viagem de 2 horas de autocarro, finalmente cheguei a Southampton, onde, na estação de autocarros, tirei um ticket e esperei por um táxi para me levar à minha residência. Eis que o meu número é chamado, pisca o 84 no placar e eu vejo, na minha frente, um senhor muito alto, muito entroncado, com a pele muito negra, com rastas pelo meio das costas, vestido nas cores Jamaicanas (verde, amarelo e vermelho) e a chamar o meu número no típico sotaque inglês das ilhas...Fiquei sem reação, não sabia se deveria entrar no táxi ou não, porque a diferença dessa pessoa me abalou. De volta à consciência de mim, essa fração de segundo em que hesitei, desvaneceu-se e foi com uma dose grande de ‘reprovação pessoal’ que entrei no táxi e fui para a minha residência. Este senhor, provou ser uma das pessoas mais simpáticas com quem interagi em Southampton, levou-me diretamente para o destino, ajudou-me com as malas muito mais do que o que lhe competia, e fez-me ver o quão injusto o nosso receio da Diferença pode ser. Viver fora, numa nova cultura, numa nova realidade, é assim, na minha opinião, o segundo passo.
Aprender a realmente ver o Outro, a compreender o Outro, a aceitar o Outro. É isto que é fulcral na estrada para a aldeia global de que tanto se fala. Mas a teoria é uma, e a prática é bem distinta. Com a minha grande bagagem sobre a interação com pessoas de diferentes culturas, lancei-me de cabeça, mal me licenciei, num doutoramento que me levasse até ao meu sonho: o Japão. Embarquei nesta aventura há cinco anos e ainda hoje a minha saga continua...Esta saga levou-me à maior das minhas conquistas, viver em Tóquio durante um ano, e aí pude: respirar a cultura nipónica, saborear a sua língua tão distinta das que já conhecia...Tudo era diferente. Por terras de sol nascente vivi episódios caricatos e conheci imensas pessoas interessantes. O silêncio sepulcral da multidão da grande capital chocou-me, mas os barulhentos habitantes de Osaka conquistaram-me. Por Hiroshima deixei-me dilacerar pelas memórias atómicas de um passado não muito distante, mas deleitar na humildade e simpatia das suas gentes que, pela primeira vez no Japão, me trataram como ‘normal’. Pelo meu sotaque e domínio do Inglês houve alturas em que me tomaram por cidadã americana, mas sempre fiz questão de demarcar a minha existência Europeia, que lhes agradava mais, e a minha nacionalidade lusa que os levava invariavelmente ao mesmo comentário: “Visitei o Cabo da Roca!” – e perguntam-se agora vocês, como eu perguntei também: “Porquê o Cabo da Roca? O que faz alguém atravessar metade do globo, até ao nosso paraíso à beira-mar plantado, para ver o Cabo da Roca???”, respondiam-me eles cheios de respeito: “A ponta mais ocidental da Europa; o fim do continente Europeu”, e sorrio ainda hoje ao lembrar o quanto para eles este sítio se enchia de significado. O fim da terra deu-nos o nosso legado marítimo, e para um povo insular como o Japonês, os pontos que marcam os fins e os inícios são quase sagrados. Quantas destas singularidades vivi no Japão...
Esta aventura épica teve momentos de sonho e de pesadelo, até para alguém como eu, tão teoricamente consciente dos desafios da interação intercultural – a estudar precisamente isso no âmbito da minha investigação. Martins Janeira, antigo embaixador português no Japão, escreveu um dia:
o Oriente abriu novas gamas na minha sensibilidade, deu firmeza às minhas raízes e alargou a minha visão intelectual, aprofundou e alargou o meu humanismo – tornou-me mais português e mais universal. [...] Também eu, lá longe, me senti muita vez abandonado e sofri a saudade da minha terra.
Faço minhas as suas palavras, porque ao lê-las me revejo inteira nelas. Não seria quem sou hoje não fora o Oriente. No contacto com o Outro conhecemo-nos a nós próprios. Nem sempre sou capaz de ser como acho que deveria ser, tão tolerante como sinto que deveria ser, nem tão capaz de aceitar a diferença como tenho motivos para o fazer; mas se há coisa que nunca me abandona é a consciência disso mesmo. Naqueles momentos escuros em que penso ‘Porque é que são assim? Porque é que vivem assim? Porque é que não são mais como nós?’ uma parte de mim desprende-se e olha-me de fora, chamando-me à razão e demonstrando-me o caminho que ainda tenho de percorrer. E nessa consciência procuro envolver-me, aqui mesmo na minha terra, aqui no meu porto de abrigo onde as minhas raízes estão bem presas, procuro então envolver-me com o máximo de pessoas possível, sobretudo estrangeiras, para com elas poder continuar a minha caminhada. Entendo neste convívio com a diferença, o terceiro passo para alguém chegar a ser um cidadão do mundo.
Mas onde entra o bacalhau perguntam-me...Pois o bacalhau está em todos estes passos. Recentemente a terra de onde sou encheu-se de orgulho e inaugurou um aquário de bacalhaus. Na terra que se dedicou a apanhar e manipular bacalhau, levando-o à mesa de todos, existe agora um espaço para que as nossas crianças, jovens, adultos e seniores, possam finalmente admirar o fiel amigo em toda a sua viva existência. Vê-lo nadar nesse aquário, absorto na sua existência, a ser admirado por pessoas de todas as idades e nacionalidades mostra-nos como é querido e respeitado universalmente este fiel amigo. Nós, portugueses, dizemos que o bacalhau é nosso, pois, como ninguém desenvolvemos o seu uso na gastronomia, no entanto, este ‘nosso’ bacalhau é um estrangeiro nas nossas terras. Foi necessário sempre cruzar os mares para o ir buscar. O Bacalhau levou-nos a viajar e a conhecer novas culturas. Para além disso, não conheci ainda nenhum povo que não apreciasse o bacalhau – já viram algum estrangeiro partir de Portugal sem provar e deliciar-se com uma boa posta desta iguaria? Eu nunca vi. Mais caro ou mais barato, inteiro ou em postas, seco ou congelado, até do outro lado do mundo o bacalhau se encontra à venda, e ninguém o deixa de comprar por pertencer a este ou àquele sítio.
Como o Bacalhau também devemos nós tentar ser cidadãos do mundo: nadar num aquário da mesma forma que no Oceano, porque o que interessa para a nossa existência não é só o sítio de onde somos, mas aquilo que temos dentro de nós onde quer que estejamos; dividir o nosso espaço com outros bem diferentes de nós, mas respeitando que apesar de todas as nossas difereças integramos todos uma denominação comum: a de ser humano; e integrar cada cultura, não para deturpar o que nela já existia, mas para enriquecê-la com a nossa singularidade.

O caminho para ser ‘cidadão do mundo’, na minha humilde opinião, passa por: conservar e reconhecer a importância das nossas raízes aprendendo a viver em todo o lado, com a consciência de que o mais importante está sempre dentro de nós; sentir a humanidade como nossa família, respeitando e procurando compreender os outros na sua Diferença (ainda que mesmo não aceitando), porque é a diversidade que nos enriquece a todos; sentir como nossas as dificuldades que são vividas por outros seres humanos por esse mundo fora e procurar ajudá-los como pudermos. Setembro, 2013