O relógio
começa hoje a andar para trás: precisamente daqui a um mês eu estarei num avião
para fazer a viagem de regresso à Europa. A minha aventura em Timor-Leste (tão
curta que ainda nem me apercebo de como está a chegar ao fim) vai levar na
bagagem muitas histórias de sítios, pessoas e situações que eu nunca poderia
ter imaginado...Hoje, a contar um mês para o regresso eu quero lembrar algumas
dessas histórias.
Um Halloween fantasmagórico...
Outubro foi
um mês de loucos, a preparação do evento “World Festivities & Halloween”
(dedicado a muitas festividades para celebração dos antepassados e do
sobrenatural) deixou-me completamente assoberbada, pelo que me foi impossível
fazer o que quer que fosse para além da organização e preparação dos materiais.
No dia 31 de outubro, graças à generosidade e ajuda de muitas pessoas, até de
Portugal e do Canadá, conseguimos proporcionar a estudantes do secundário umas
horas diferentes: começaram por resolver um Quizz com perguntas sobre as
festividades do mundo (tinham de encontrar as soluções nos cartazes expostos),
depois tiveram pinturas faciais, lanternas feitas de abóboras e melancias,
criação e desfile de máscaras, jogos tradicionais, enfim, foi uma manhã repleta
de animação. O saldo do evento foi positivo, particularmente porque os
Timorenses revelam alguma apreensão para com a tradição de Halloween, que não
compreendem nem conhecem ainda bem, mas neste evento, os jovens ficaram a
conhecer a diversidade de festejos que existe no mundo, para além do Halloween,
e relativamente a esta celebração puderam compreender o que simboliza e o que
inclui. Desconstruímos estereótipos e ajudámos os alunos a refletir também sobre
a sua própria cultura, e no final, num ambiente de muito maior relaxamento e
animação, todos eles se mostraram interessados em participar nas várias
atividades, inclusivamente nas pinturas faciais (que tanta apreensão provocaram nos professores que os acompanhavam). Deixo-vos com um vislumbre da exposição e
da decoração do evento...
As pessoas que cruzam o meu caminho
Cada
pessoa que se cruza comigo, cada rua em que caminho, cada árvore que encontro
cortada, retalhada ou enrolada em arame farpado têm em si uma história, uma
sequência de acontecimentos que os trouxe até este momento mas da qual eu nada
sei. Foi isso que pensei numa conversa casual com um taxista particularmente
simpático que me trouxe de volta a casa no outro dia. O jovem taxista, que não
deveria ter mais de vinte anos eu acho, começou por perguntar de onde eu vinha,
e ficou contente por saber que eu era portuguesa. No seu português incipiente
contou-me que era de Baucau, mas que tinha vindo trabalhar para Díli, onde é
mais fácil ser taxista. Na conversa eu disse-lhe que estudava Tétum e ele ficou
muito contente, disse que também ele gostava muito de estudar, mas que não
tivera tido oportunidade porque tinha ficado órfão na 3.ª classe e tivera de ir
trabalhar. A história dura da sua vida ele contava-a com um grande sorriso e
uma enorme descontração enquanto fumava o seu cigarro. Senti um nó. Histórias
como esta abundam por aqui... todos os dias, quando espero o transporte para
voltar ao bairro, estou rodeada de crianças de todas as idades, mal-nutridas e
mal-vestidas, descalças e sem rumo, que circundam nos arredores do Instituto
onde trabalho. Os seus risos estridentes contrastam com a agrura da condição em
que vivem. As histórias de todas estas crianças e jovens lembra-me sempre as
árvores enroladas em arame farpado que existem em muitos pontos de Díli: as suas
existências estão confinadas a amarras que as aprisionam sem que elas pareçam
aperceber-se. Riem, crescem e sobrevivem cada dia sem perceber que todos os
seus movimentos são guiados e aprisionados num arame farpado invisível que
traça o seu destino. Timor-Leste ainda vive aprisionado em si próprio, é
urgente que se trabalhe para cortar estas amarras. Estou aqui há quase 3 meses,
em breve, estarei de partida, mas estas imagens duras e dilacerantes irão
comigo e permanecerão. Não sei quanto tempo, ou se algum dia, este país se
libertará destas amarras feras, mas com todo o meu ser torço para que consigam,
porque este processo é um de crescimento interior, nada do que nós estrangeiros
digamos ou façamos vai mudar esta situação, resta-nos abrir os horizontes das
pessoas com quem lidamos diariamente e esperar que cada um deles se liberte e
incite os outros a fazê-lo também.
Matar saudades da Europa, sempre com
um twist...
A palavra ‘Saudade’
sabemos bem o quão portuguesa ela é. Aquele sentimento de nostalgia, mistura de
tristeza, alegria, esperança e desespero, numa amálgama que nos ata o coração.
Para combater as saudades são muitos os remédios a que recorremos. Desde logo
as video-chamadas para Portugal/França: nada melhor do que ouvir e ver a família e
os amigos para me lembrar o calor que tenho a sorte de poder receber deles.
Mas, por vezes, até isso começa a saber a pouco, é nessas alturas que temos de
recorrer aos outros sentidos...
Estas
últimas semanas tenho procurado sair mais de casa e do bairro, experimentado
almoçar noutros locais. Uma das minhas aventuras foi no Hotel Novo Turismo
(devem lembrar-se dele, pela magnífica piscina com o simpático
crocodilo... podem relembrar aqui: http://timordevera.blogspot.com/2014/09/encontros-imediatos-em-lecidere.html).
O chefe do restaurante é Português e a comida que serve é simplesmente divinal!
O bacalhau espiritual que provei foi uma delícia para todos os meus sentidos: a
apresentação é requintada, o paladar absolutamente fantástico, a textura, a
cor, enfim, sem dúvida que a gastronomia portuguesa é uma das melhores do
mundo!!! Ainda houve um espacinho no estômago para um Pudim Caseiro de chorar por mais! Claro que esta refeição magnífica, completa com o fantástico design do
hotel, o requinte da sala de jantar, as fardas dos funcionários que eu admiro
todas as vezes que lá entro, foi um momento de puro prazer. Matar saudades do
que nos pertence, mesmo estando do outro lado do mundo, faz-me sentir muito
grata.
Mas nem só
de comida portuguesa se tem saudades... Andava há uns tempos a querer muito
comer uma pizza. Na passada sexta tive oportunidade de ir jantar ao Cast Away,
um bar/restaurante frequentado sobretudo por estrangeiros. Fica na marginal,
mesmo de frente para a praia, tem um aspeto de bar de praia e um ambiente muito
descontraído. Nessa noite deliciei-me com uma pizza Havaina acompanhada por um
mojito (que estava demasiado doce porque aqui por estes lados, tudo o que seja
de limão leva toneladas de açúcar! E eu esqueci-me de pedir “La masin midar” =Sem açúcar); nem o consegui acabar de tão doce que estava, mas a seguir bebi
um Bacardi com sumo de lima (La midar!!!) que estava amargamente delicioso J Tinham
música ao vivo nessa noite, por isso ainda tive oportunidade de relembrar
algumas músicas intemporais de Jimi Hendrix ou Pearl Jam.
Estas e
tantas outras são as histórias que se cruzam, entre-cruzam e emaranham nesta existência
que vou vivendo aqui em Díli. A dura realidade contrasta com alguns momentos de
deleite e prazer que vamos encontrando em alguns espaços. E assim vai passando
o tempo: falta precisamente um mês.
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