sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Este blog - apresentação

Antes de mais parece-me essencial explicitar a natureza deste Blog. A primeira vez que me aventurei no Oriente foi quando vivi no Japão; foi nessa altura que me ocorreu manter um blog para dar notícias a amigos e conhecidos. Nessa altura, o facebook ainda não era de uso comum e partilhar fotos e informação nem sempre era fácil. Apesar de hoje os caminhos de partilha serem muitos, achei por bem retomar o hábito de escrever a narrar as minhas (des)venturas por terras orientais. Desta vez é Timor quem me acolhe e eu espero muitos choques, surpresas, sobressaltos, risos, lágrimas...enfim, mas para já deixo-me ir na onda ;)
Estes artigos pretendem dar a conhecer um pouco da minha realidade aqui, mas devo ressalvar que tudo o que narro é a minha perspetiva sobre as coisas. Isto é importante, porque a minha interpretação é isso mesmo: minha, pessoal e filtrada pelas minhas experiências. De qualquer forma, espero que a informação acabe por ser interessante ;) E, estarei sempre disponível para responder a questões ou a comentários sobre o que escrevo; procurarei sempre adotar uma postura de compreensão do Outro tão isenta quanto possível, mas sei que nem sempre o conseguirei, perdoem a minha potencial parcialidade.
Venham comigo descobrir o "Timor, de Vera". 

A viagem e a chegada

Viajar entre Portugal e Timor é uma viagem longa e muito cansativa! Saí de Lisboa no dia 26 de agosto rumo ao Dubai onde parei, por uma hora, para depois seguir para Singapura. Voei com a Emirates e adorei o serviço. O avião, o pessoal de bordo, a comida (era deliciosa!!! e a quantidade também agradou muito!!!), a viagem, tudo correu muitíssimo bem. Foram 7,5 horas, em que o corpo começa a sentir que já está demasiado cansado de estar na mesma posição, o ar condicionado começa a provocar dores de cabeça, sinceramente é preciso realmente sair do lugar, esticar um pouco para acordar os músculos que querem ficar dormentes. Nesta viagem aproveitei o serviço de entretenimento ao máximo: vi 3 filmes, joguei sudoku e ouvi música. Do Dubai para Singapura a viagem foi ainda melhor :)
O avião saiu às 3 da manhã, pelo que estava quase vazio, e eu tive a sorte de ser a única numa fila de 3 lugares. Assim, deu para dormir mais à vontade, e entre acordada e a dormir, as 7 horas passaram bem mais rapidamente. Foi por volta das 15h que aterrei no Changi de Singapura.
Saí pelo serviço de controlo de passaportes e fui para o Crowne Plaza, onde fiquei a pernoitar. Um sonho de hotel, um sonho de quarto, com uma vista de tirar a respiração...enfim, o paraíso na terra foi meu por uma tarde e uma noite.


Aproveitei para me refrescar e saí para conhecer a cidade. Como o tempo era pouco e eu nada tinha pesquisado sobre a cidade, decidi jogar pelo seguro e comprei um bilhete de viagem turística de autocarro (aqueles double-deckers, com a parte superior aberta). Fui ouvindo as explicações enquanto circulava por uma das cidades mais verdejantes, limpas, organizadas e modernas em que já estive. Os arranha-céus, obras magníficas de arquitetura moderna, combinam-se com edifícios vitorianos e outros modelos de construção da Europa Antiga, numa combinação de passado e futuro em perfeita harmonia.





A ligar estes dois tempos, um mar de verde cobria os passeios, ensombrava as ruas, trepava pelas muros e deitava-se sobre as margens do rio. Nunca tinha visto uma cidade tão moderna com tanta natureza, com tanto verde, com tantos pássaros e flores. [IMG 1085] Apaixonei-me por Singapura e hei-de lá voltar, até porque não andei no Flyer (a roda gigante - ainda maior do que o London Eye -, o meu 'calcanhar de Aquiles', já que quando vejo uma, tenho de andar nela!!!).

Voltei para um jantar no hotel, e deliciei-me com um jantar de sushi e salteados de vegetais, cajus e galinha. Mas o sushi era absolutamente extraordinário. Fiquei rendida. Tudo neste dia foi absolutamente perfeito e ainda bem, porque eu já sabia que a perfeição iria dar lugar a algo muito diferente. 
Da noite para o dia, da água para o vinho, do paraíso para o Caos. Foi assim que aconteceu de 27 para 28 de agosto. O avião da SilkAir trouxe-me para Díli (neste já não havia entretenimento individual a bordo, nem auscultadores para ouvir o que quer que fosse, era menos confortável, mas o staff igualmente simpático e a comida também boa. 
Aproximamo-nos de Díli e eu começo a pensar como será o aeroporto, já que não o consegui sequer vislumbrar. Começo a ver pela janela pavilhões que me lembram casernas de quartéis militares à direita, e bananeiras por todo o lado. No meio a pista, em redor só terra e depois só mato. Lá no meio, vislumbra-se uma casa de rés-do-chão com uma fila de mastros de bandeiras em frente e duas entradas arqueadas onde se lia ‘Bem-Vindo a Timor’.

 
Não quis acreditar, nunca tinha visto nada igual. Para sairmos veio uma escada com rodas empurrada por trabalhadores. Depois começou a confusão das filas. Espero aqui, mas há gente ali, só vejo gente a falar com um funcionário, há dinheiro a ser trocado e eu não percebo o que se passa. Na parede um sinal que diz que os portugueses passam diretamente para o controlo de passaporto, entro, a medo. Chego à frente, o Sr. diz que precisa de um papel, eu não tenho nada, ele dá-mo e manda-me ir preencher. Volto à fila, finalmente ele aceita deixar-me passar. Encontro a minha mala que veio sozinha à minha frente e vou para sair. Mandam-me desviar e pôr a mala noutro lugar. Novamente me pedem um papel. Digo que não sei que papel é, eles insistem. Corro todos os documentos que trago comigo, não são esses. Começo a ficar mesmo preocupada, já tremo e só penso que não vou conseguir chegar ao pé das pessoas que me esperam do lado de fora. Um filme! Finalmente o Sr. volta a dar-me outro papel, tenho de preencher, ele felizmente fala português! E assim consigo sair. Algumas pessoas aglomeradas numa entrada, quase lembra a entrada de um supermercado, e lá encontro quem me esperava. Começa a saga de andar de carro em Díli: regras de trânsito, não existem, ou ninguém se importa. Há motas, carros e gente por todo o lado e em todas as direções. Agarro-me ao puxador porque em 5 minutos podia ter estado envolvida em várias colisões...enfim, o caos. Chego à residência! Já tenho teto, o resto será bónus. Passo a tarde a circular numa das carrinhas de transporte com um colega. Ele ajuda-me a comprar um cartão de telemóvel na TT (Timor Telecom) e 'pulsa' (ou seja: saldo!). Depois, pede que nos levem às compras. Vamos pela marginal. Um sítio todo arranjado para a Cimeira da CPLP que aconteceu cá recentemente. Está bonito; faz lembrar o Brasil (nas imagens que vejo na tv). Para chegar ao supermercado temos de atravessar a rua. Há carros e motas em magotes em todo o lado, a deslocar-se a grande velocidade. Vislumbro uma passadeira ao longe, mas ele diz-me que é escusado. É para atravessar, estilo 'salve-se quem puder'. Acho que não me consigo habituar a atravessar as ruas, mas veremos. De volta à residência começam as histórias. Lanche com mais dois colegas e muitas histórias de bichos, assédios, acidentes e afins...Seria uma praxe? Não sei, acho que vou ter de descobrir por mim. 
São 9 horas de diferença para com Portugal, a viagem foi extremamente longa, mas como antes, continuo a conseguir dormir bem e sinto-me com energia durante o dia. Dormi descansada e confortável, na segurança da rede que pendurei por cima da cama. Apesar das histórias, ainda não foi hoje que vi nenhuma 'Teki' nem nenhum 'Toké' (perdoem, mas ainda não sei se é assim que se escrevem), e estou muito contente por isso. Hoje foi dia de estar no INFORDEPE (Instituto Nacional de Formação de Docentes e Profissionais da Educação), onde vou estar a dar formação, e de fazer mil e uma coisas: as burocracias que implica assinar contratos e afins. Voltei para casa para almoçar com a minha colega de casa e foi altura de eu ser realmente recebida por Timor.
Durante o almoço, no meio de muita conversa, pareceu-me ver água no chão da sala. Começámos a ver: inundação em casa! E a água da inundação? De esgoto, claro!
Não estava super-poluída, mas cheirava mal e via-se gordura. Até trememos quando vimos que estava no corredor em direção aos quartos. Tive azar. O corredor é contíguo ao meu quarto, mais precisamente ao meu armário e a água entrou por aí. Fiquei com todos os sapatos molhados de água suja. e a minha mala grande também. Conclusão: tarde passada em limpezas (as senhoras da limpeza limparam o maior, nas áreas comuns, mas eu limpei o meu quarto e tive de limpar todo o meu calçado. Que rico exercício físico. A reação de todos foi a mesma, como se unanimente este episódio só quisesse dizer uma coisa: Bem-vinda a Timor!

A minha aventura começou oficialmente. Timor vai ser duro, eu vou ter de me adaptar a muitas coisas. Já percebi que tenho receio de muita coisa neste momento, mas nem por isso ando em sobressalto. Os colegas estão a ajudar, o quarto já o sinto mais meu, o trabalho não é nada que eu não estivesse à espera (ainda que vá ser desafiante a muitos níveis)...enfim, é uma nova vida que começa e eu terei de a aprender a viver. Hoje, sinto-me bem, amanhã veremos ;)