sábado, 27 de setembro de 2014

Hoje, olho o passado e imagino o futuro

Faz hoje exatamente um mês que aterrei no aeroporto de Timor, aquele sítio que não me pareceu um aeroporto e em que percebi que a minha realidade iria ser substancialmente alterada! O tempo voa demasiado rápido, não sei bem para onde vai, mas corre sempre, sempre. Tal como sentira no Japão, vejo-me novamente como o Coelho Branco de relógio em punho a dizer “A minha rainha, a minha rainha”... (se tiverem curiosidade poderão ver essa história aqui: http://nihondevera.blogspot.com/2008_11_01_archive.html)

Há uns dias parei, olhei para o calendário e percebi como realmente tudo muda e passa rápido.Quinta-feira, 11 de setembro de 2014. Parece incrível como o tempo passa rápido. Ainda há anos estava em casa a ver as duas torres a colapsar, arrastando para a morte milhares de pessoas de tantos países diferentes, e aqui estava eu agora, em Timor Leste, a acabar a minha primeira semana de formação. Para além da formação, que dou a professores formadores de Inglês, tenho também um horário de apoio aos professores de Inglês na Escola 4 de Setembro, uma escola junto do INFORDEPE, onde dou a formação.
Entrada do INFORDEPE
Escola 4 de Setembro, Díli




















O balanço dessa primeira semana foi bastante positivo, o que, para mim, nesse 11 de setembro teve um gosto especial. A toda a volta a destruição dá lugar a uma nova vida, seja o fogo que fertiliza as terras na Austrália, seja Hiroshima renascida das cinzas de uma bomba atómica... a toda a volta a Natureza diz-me que é possível recomeçar de novo, mais fortes, mais ricos e melhores.
Como é então uma semana típica de trabalho em Timor Leste? Bem, todos os dias tenho ou a formação no Infordepe, ou o apoio na 4 de Setembro, ou ambos. Agora estou também a iniciar o estudo de Tétum, pelo que tenho aulas duas vezes por semana. Ainda só estou a iniciar, mas o sistema linguístico parece-me muito compreensível e simples (em comparação com o Português!), notei inclusivamente algumas pequenas nuances que me pareceram idênticas ao Japonês, mas terei de aprofundar o estudo para ver se o serão realmente. De casa para o trabalho temos quase sempre transporte, umas carrinhas assim bem experientes que balançam nas estradas, sobretudo nas partes de terra batida...cintos? Para quê?!?
As nossas fantásticas carrinhas

 Estas pequenas deslocações são sempre aventuras: carros a espremerem-se em ruas estreitas e com grandes valas de esgotos de cada lado, pessoas a andar por todo o lado, as gincanas das motas, as corridas dos galos a atravessar as ruas...enfim, nunca deixam de me espantar! O meu trabalho decorre dentro de uma rotina que já me começa a parecer normal e tenho ficado positivamente surpreendida com a participação dos formandos. Os professores do apoio nem sempre aparecem, mas 3 deles começam já a ser assíduos. Num país que ainda está no seu início, numa sociedade com regras tão diferentes, há algumas barreiras que nem sempre conseguimos transpor. Ser mulher, ser jovem, ser ‘malai’ (estrangeiro/a),...estas e muitas outras circunstâncias podem ser fatores que condicionam a nossa receção. Não é nada de extraordinário, e muito menos delimitado a esta realidade. Tudo isto faz parte da nossa profissão e formação. É necessário ter sempre presente que estamos num país de diferentes costumes, de diferentes ideologias e que temos de nos adaptar à realidade, em vez de esperar que a realidade se adapte a nós.
Até agora as sessões de formação que dei têm-me dado ânimo. Decorreram sem incidentes, os formandos conseguiram discutir ideias, partilhar sugestões, refletir em conjunto sobre vários temas (gestão de aula; forma de conduzir diversas atividades...); a língua inglesa foi suficiente para assegurar a intercompreensão e, creio, que estamos a conseguir trabalhar em conjunto. O tema da unidade em estudo também ajuda, já que falar de Mobilidade e Viagens é sempre um tema que parece agradar. Dificuldades científicas e pedagógicas não faltam neste sistema de ensino, as limitações que estes professores enfrentam diariamente nas suas escolas vão para além daquilo que podemos imaginar (imaginem-se escolas sem eletricidade, em que uma atividade tão banal em Portugal como ouvir um texto áudio na aula se torna impossível; imaginem-se alunos sem livros, que para estudar têm de ir buscar exemplares à biblioteca e que os partilham só durante a aula; imaginem-se turmas de mais de 50 alunos, em salas fantasmagóricas, de vidros partidos, quase sem cadeiras ou mesas, pó e terra por todo o lado; galos, galinhas e até cabras a circular livremente pelo recinto escolar...enfim, realidades que não conhecemos minimamente!). Infelizmente, a minha turma teve problemas com a sala que nos estava destinada. Por isso tivemos de nos adaptar: agora as minhas formações são dadas num hall de um bloco de formações, improvisámos umas divisórias com estantes, o quadro está em cima de um armário de gavetas e os alunos sentam-se ao redor de uma grande mesa de madeira.
"Sala" de Formação de Inglês :)
Apesar de ser um espaço improvisado estamos a habituar-nos a ele e, pouco a pouco, estamos a torná-lo mais nosso, personalizando-o com trabalhos e imagens, acho que lhe poderemos chamar “Our English Corner”!
O ser humano adapta-se a tudo. Nunca deixa de me impressionar esta capacidade, esta força que nos faz habituar a tudo. Também eu me estou a habituar aqui, lentamente. Já se torna mais fácil circular nesta cidade desconhecida, já consigo atravessar as ruas apesar dos movimentos serpenteantes de carros, motas, carrinhas e afins... Já me habituei aos olhares, aos ‘Bons dias’ e ‘Boas Tardiiiiis’, aos cuidados com os mosquitos (felizmente ainda estamos na época seca, em que há menos!).
No breve mês desde que cheguei já houve progressos notórios. Junto da Escola 4 De Setembro a grande estrada era de terra batida (que iam molhando durante o dia, mas que mesmo assim a cada passagem de carros, carrinhas e camiões, se desvanecia em núvens de pó e terra a voar em todas as direções. Chegar até à escola era penoso. Respirar tornava-se quase suicida! Agora finalmente está a ser alcatroada e a paisagem alterou-se significativamente para melhor!!!
Estrada antes de ser alcatroada

Estrada ao fundo, já depois de alcatroada (sem poeira!)






























Eu tenho por hábito trazer écharpes para poder tapar a boca e o nariz, mas mesmo assim, toda essa poeirada estava a dar comigo em doida! Para a escola, nas condições em que temos de trabalhar, só me atrevo a vestir calças de ganga e calçar botas de montanhismo. Os meus colegas riem. Eles andam com tecidos mais leves e até de sandálias, mas eu não me consigo imaginar neste lugar assim. 

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro



































Suporto bem o calor, transpiro um pouco mais, mas sinto-me mais segura assim, por isso acho que vou continuar a ser uma ‘strange legal alien’. Quando chego à sala de trabalho da escola, começo o meu ritual: limpar a mesa onde vou trabalhar com papel, limpar a cadeira onde me vou sentar, limpar ainda o balcão onde vou colocar a mochila, tirar a base de plástico que comprei para pôr por baixo do portátil, limpar o portátil e, finalmente, começar a trabalhar. Não sei se o tempo me fará quebrar este ritual, imagino que a habituação e a adaptação também passem por aí, mas para já, estes rituais fazem-me ter a ilusão da segurança e do controlo e deixam-me menos ansiosa. Mas sabem? Existe um aspeto positivo de ter uma sala com janelas partidas ou inexistentes: todos os dias tenho a companhia de passarinhos enquanto trabalho, divirto-me a vê-los aos saltinhos no chão e pelas mesas. Nem tudo é só bom ou mau!
Não se percebe bem, mas está um pássaro no balcão por trás da mesa com o pano azul.
O bairro onde vivo é agradável ainda que, como habitual, vá tendo os seus problemas pontuais. Ultimamente é o sistema de canalizações que não se encontra tão bem, pelo que uma equipa tem andado a trabalhar para ter tudo melhor antes da chegada da época das chuvas. Existem muitos gatos no bairro, uma das gatinhas teve bebés. Vi-a há uns dias, descansadamente a dormir por baixo de um jipe, com um dos bebés a dormir enrolado junto da barriga dela. São uns fofos, mas não são propriamente domésticos, pelo que não lhes posso tocar. Contento-me a vê-los, na sua liberdade de gatos, em que tudo o que são só a eles pertence. 
O Bairro de Vila Verde
















Os gatos do bairro :)
















Pois é, já passou um mês desde que cheguei a Timor Leste. O tempo realmente foge-me fugazmente, bem que tento mas não o consigo apanhar. Isso é o que demais presente tenho em mim hoje. Desde que cheguei já aconteceu um turbilhão de coisas, já conheci, vivi e experimentei muitas coisas, emoções, situações...mas continua a parecer que ainda ontem estava na minha casa em Portugal a imaginar como seria a vida nesta realidade. Agora estou aqui, estou bem, sinto que esta experiência me vai fazer crescer e tornar-me uma pessoa diferente. Não gosto da ideia epicurista do Carpe Diem, mas estou a tentar viver sem pensar demasiado no futuro, vamos andando e vendo ;) Hoje é o Sting quem me acompanha, e como ele também eu sou uma “... legal alien” só que eu sou uma Portuguesa em Díli (poderão ouvi-lo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=d27gTrPPAyk)
Eu estou aqui: em Timor Leste!



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Um mês: a partida

Faz exatamente um mês que saí de Portugal. Para assinalar esta data gostaria hoje de partilhar algo que escrevi no ano passado, por volta desta altura. Trata-se de um texto que escrevi a convite de um núcleo de uma organização internacional de solidariedade social, chamada curiosamente de Academia do Bacalhau. Neste texto, procurei refletir sobre o significado de ser Cidadão do Mundo, e hoje, mais do que nunca, as palavras que escrevi renovam todo o seu sentido. Peço desculpa por ser um texto longo!

“Cidadão do mundo
No outro dia, a conversar com uma amiga e o seu pai, disse-nos ele “Eu sou um cidadão do mundo. Não sou Português ou Espanhol, sou um cidadão do mundo”. As suas palavras ressoaram na minha mente durante todos estes dias e isso levou-me a questionar o significado daquilo que ele dissera.
Sei que viajou extensivamente, que viveu realidades e culturas distintas, mas tantas outras pessoas também o viveram e, no entanto, nunca nenhuma delas afirmara algo assim sobre si próprio(a). Não, ser cidadão do mundo tem de envolver bem mais do que isso, mas de certa forma acho que cheguei a compreender o que ele queria dizer.
Sou hoje uma professora de línguas formada há vários anos, mas, por força das circunstâncias, vejo-me ainda como uma ‘jovem’. Não pela minha idade, que não é muita, é certo, mas sobretudo porque para se ser ‘jovem’ como eu sou, e tantos outros que conheço, a definição incide mais sobre uma certa incerteza existencial contínua. Sou jovem demais para pensar em formar uma família; sou demasiado jovem para poder assumir a responsabilidade da minha vida ou para ser independente dos meus queridos pais, sou ainda muito jovem...uma jovem de 30 anos qualquer dia, um caso absolutamente típico nos nossos dias. Mas ao longo destes anos tenho vindo, cada vez mais a questionar esta circunstância da vida dos nossos tempos: ser cidadão do mundo.
Como o pai da minha amiga, também já vivi fora de Portugal, fora desta conchinha onde nasci e cresci, nesta terra à beira mar que se orgulha do mar e da ria, que se orgulha de ser terra de bravos homens de mar e de corajosas mulheres da terra. Desta minha terra de que sempre ouvi dizer que é a terra do fiel amigo, esse nosso bem conhecido Gadus Morhua, a que tão ternamente em Portugal conhecemos como Bacalhau. Curiosamente, é este fiel amigo quem me ajuda a compreender o que é ser um cidadão do mundo.
Toda a minha vida tive um orgulho enorme de ser de onde sou. Ainda hoje tenho aquele brilhozinho nos olhos quando digo de onde venho, e as palavras saiem da minha boca com um impacto diferente das demais. Este orgulho vejo-o e percebo-o em tantas pessoas que me são próximas, inclusivamente no meu querido pai que nunca desejou viver noutra terra que não esta, e hoje se vê a viver bem longe dela pela também força das circunstâncias. Eu, pelo contrário, sempre sonhei com viagens e outros mundos. Desde cedo que queria embarcar na descoberta de outros sítios, outras culturas e outras realidades. Mas contactar com coisas diferentes pode abalar as nossas convicções e aquilo que temos como certo, resta saber se esses abalos são negativos ou positivos, ou se isso sequer importa!
O meu primeiro grande terramoto neste etnocentrismo que carregava em mim, deu-se aos meus 9 anos, com o início da aprendizagem de uma nova língua, uma que era estrangeira, e que, segundo minha escolha, era o Inglês. Tudo nesta língua era diferente daquilo que eu tão bem conhecia... tudo era tão diferente, mas nunca me pareceu estranho. Nesta língua, quando a vesti, aprendi que o mundo não precisa de estar sempre dividido em Masculino e Feminino; a palavra ‘friend’ não implica se é amigo ou é amiga, só importa o laço de amizade com que connosco alguém teceu. Esta constatação foi maravilhosa nos meus olhos, e vesti o Inglês como nunca mais consegui, até hoje, vestir nenhuma outra língua – à exceção claro está, da minha própria pele que se chama Português.
Dois anos mais tarde, o meu mundo torna a ser abalado, mas desta vez o abalo tocou-me num ponto particularmente sensível. O Mar, este elemento tão caro ao meu coração, este elemento que tanto (des)une os meus conterrâneos, esse mar que tão Português é, que até o seu sal proveio das lágrimas lusitanas, o meu mar deixava de ser masculino e diziam, passava a ser feminino. La mer, dizia-me o Francês e eu não gostei. Achei que não tinham nada que alterar o género do mar; uma coisa é não ter género, mas alterarem aquilo em que eu sempre acreditara chocou-me! Quiçá não terá sido essa a grande razão para a minha resistência a essa língua... Aprender línguas vai-nos dando pequenos terramotos que, como disse, abalam as nossas convicções, que deturpam aquilo que para nós é tão certo... e por isso mesmo, aprender línguas estrangeiras é uma experiência de humildade (disse-me um grande professor americano, de seu nome Fantini), e esse é o primeiro grande passo.
Tudo o que é diferente causa em nós um sentimento de insegurança. Não nos revemos, e esse não se rever, não saber o que o Outro é, pensa, faz, quer... esse não saber, causa em nós um medo que nos acorrenta. Já bem consciente da existência no mundo de culturas diferentes, depois de ser já durante anos uma discípula assídua de novas línguas, literaturas e culturas (sobretudo pela minha educação superior em Ensino de Português e Inglês), parti, no meu terceiro ano da universidade, para uma das maiores aventuras da minha vida: ser Erasmus. Como Erasmus de Roterdão, também eu rumei a outro país para aí aprender coisas novas. Southampton acolheu-me de braços abertos e nela me senti mais viva, mais adulta e mais eu do que até então. Erasmus foi a minha bolha, vivi fora mas dentro de uma cultura que em muitas coisas se assemelhava com a minha. No entanto, alturas houve em que fui testada nos meus limites da aceitação do Outro, e sobretudo na aceitação da Diferença... Lembro o episódio curioso da minha chegada à cidade. Saída de um avião em Londres, e depois de uma viagem de 2 horas de autocarro, finalmente cheguei a Southampton, onde, na estação de autocarros, tirei um ticket e esperei por um táxi para me levar à minha residência. Eis que o meu número é chamado, pisca o 84 no placar e eu vejo, na minha frente, um senhor muito alto, muito entroncado, com a pele muito negra, com rastas pelo meio das costas, vestido nas cores Jamaicanas (verde, amarelo e vermelho) e a chamar o meu número no típico sotaque inglês das ilhas...Fiquei sem reação, não sabia se deveria entrar no táxi ou não, porque a diferença dessa pessoa me abalou. De volta à consciência de mim, essa fração de segundo em que hesitei, desvaneceu-se e foi com uma dose grande de ‘reprovação pessoal’ que entrei no táxi e fui para a minha residência. Este senhor, provou ser uma das pessoas mais simpáticas com quem interagi em Southampton, levou-me diretamente para o destino, ajudou-me com as malas muito mais do que o que lhe competia, e fez-me ver o quão injusto o nosso receio da Diferença pode ser. Viver fora, numa nova cultura, numa nova realidade, é assim, na minha opinião, o segundo passo.
Aprender a realmente ver o Outro, a compreender o Outro, a aceitar o Outro. É isto que é fulcral na estrada para a aldeia global de que tanto se fala. Mas a teoria é uma, e a prática é bem distinta. Com a minha grande bagagem sobre a interação com pessoas de diferentes culturas, lancei-me de cabeça, mal me licenciei, num doutoramento que me levasse até ao meu sonho: o Japão. Embarquei nesta aventura há cinco anos e ainda hoje a minha saga continua...Esta saga levou-me à maior das minhas conquistas, viver em Tóquio durante um ano, e aí pude: respirar a cultura nipónica, saborear a sua língua tão distinta das que já conhecia...Tudo era diferente. Por terras de sol nascente vivi episódios caricatos e conheci imensas pessoas interessantes. O silêncio sepulcral da multidão da grande capital chocou-me, mas os barulhentos habitantes de Osaka conquistaram-me. Por Hiroshima deixei-me dilacerar pelas memórias atómicas de um passado não muito distante, mas deleitar na humildade e simpatia das suas gentes que, pela primeira vez no Japão, me trataram como ‘normal’. Pelo meu sotaque e domínio do Inglês houve alturas em que me tomaram por cidadã americana, mas sempre fiz questão de demarcar a minha existência Europeia, que lhes agradava mais, e a minha nacionalidade lusa que os levava invariavelmente ao mesmo comentário: “Visitei o Cabo da Roca!” – e perguntam-se agora vocês, como eu perguntei também: “Porquê o Cabo da Roca? O que faz alguém atravessar metade do globo, até ao nosso paraíso à beira-mar plantado, para ver o Cabo da Roca???”, respondiam-me eles cheios de respeito: “A ponta mais ocidental da Europa; o fim do continente Europeu”, e sorrio ainda hoje ao lembrar o quanto para eles este sítio se enchia de significado. O fim da terra deu-nos o nosso legado marítimo, e para um povo insular como o Japonês, os pontos que marcam os fins e os inícios são quase sagrados. Quantas destas singularidades vivi no Japão...
Esta aventura épica teve momentos de sonho e de pesadelo, até para alguém como eu, tão teoricamente consciente dos desafios da interação intercultural – a estudar precisamente isso no âmbito da minha investigação. Martins Janeira, antigo embaixador português no Japão, escreveu um dia:
o Oriente abriu novas gamas na minha sensibilidade, deu firmeza às minhas raízes e alargou a minha visão intelectual, aprofundou e alargou o meu humanismo – tornou-me mais português e mais universal. [...] Também eu, lá longe, me senti muita vez abandonado e sofri a saudade da minha terra.
Faço minhas as suas palavras, porque ao lê-las me revejo inteira nelas. Não seria quem sou hoje não fora o Oriente. No contacto com o Outro conhecemo-nos a nós próprios. Nem sempre sou capaz de ser como acho que deveria ser, tão tolerante como sinto que deveria ser, nem tão capaz de aceitar a diferença como tenho motivos para o fazer; mas se há coisa que nunca me abandona é a consciência disso mesmo. Naqueles momentos escuros em que penso ‘Porque é que são assim? Porque é que vivem assim? Porque é que não são mais como nós?’ uma parte de mim desprende-se e olha-me de fora, chamando-me à razão e demonstrando-me o caminho que ainda tenho de percorrer. E nessa consciência procuro envolver-me, aqui mesmo na minha terra, aqui no meu porto de abrigo onde as minhas raízes estão bem presas, procuro então envolver-me com o máximo de pessoas possível, sobretudo estrangeiras, para com elas poder continuar a minha caminhada. Entendo neste convívio com a diferença, o terceiro passo para alguém chegar a ser um cidadão do mundo.
Mas onde entra o bacalhau perguntam-me...Pois o bacalhau está em todos estes passos. Recentemente a terra de onde sou encheu-se de orgulho e inaugurou um aquário de bacalhaus. Na terra que se dedicou a apanhar e manipular bacalhau, levando-o à mesa de todos, existe agora um espaço para que as nossas crianças, jovens, adultos e seniores, possam finalmente admirar o fiel amigo em toda a sua viva existência. Vê-lo nadar nesse aquário, absorto na sua existência, a ser admirado por pessoas de todas as idades e nacionalidades mostra-nos como é querido e respeitado universalmente este fiel amigo. Nós, portugueses, dizemos que o bacalhau é nosso, pois, como ninguém desenvolvemos o seu uso na gastronomia, no entanto, este ‘nosso’ bacalhau é um estrangeiro nas nossas terras. Foi necessário sempre cruzar os mares para o ir buscar. O Bacalhau levou-nos a viajar e a conhecer novas culturas. Para além disso, não conheci ainda nenhum povo que não apreciasse o bacalhau – já viram algum estrangeiro partir de Portugal sem provar e deliciar-se com uma boa posta desta iguaria? Eu nunca vi. Mais caro ou mais barato, inteiro ou em postas, seco ou congelado, até do outro lado do mundo o bacalhau se encontra à venda, e ninguém o deixa de comprar por pertencer a este ou àquele sítio.
Como o Bacalhau também devemos nós tentar ser cidadãos do mundo: nadar num aquário da mesma forma que no Oceano, porque o que interessa para a nossa existência não é só o sítio de onde somos, mas aquilo que temos dentro de nós onde quer que estejamos; dividir o nosso espaço com outros bem diferentes de nós, mas respeitando que apesar de todas as nossas difereças integramos todos uma denominação comum: a de ser humano; e integrar cada cultura, não para deturpar o que nela já existia, mas para enriquecê-la com a nossa singularidade.

O caminho para ser ‘cidadão do mundo’, na minha humilde opinião, passa por: conservar e reconhecer a importância das nossas raízes aprendendo a viver em todo o lado, com a consciência de que o mais importante está sempre dentro de nós; sentir a humanidade como nossa família, respeitando e procurando compreender os outros na sua Diferença (ainda que mesmo não aceitando), porque é a diversidade que nos enriquece a todos; sentir como nossas as dificuldades que são vividas por outros seres humanos por esse mundo fora e procurar ajudá-los como pudermos. Setembro, 2013

domingo, 21 de setembro de 2014

Encontros imediatos em Lecidere

Em Lecidere, no centro de Díli, há uma grande marginal junto do mar, com um passeio largo, com árvores, que foi todo arranjado recentemente. A zona é bonita e por ali se concentram comércio e estâncias turísticas. Por esses lados há um hotel particularmente encantador, chamado Hotel Novo Turismo. Tomar um sumo junto da piscina faz-nos acreditar que estamos no paraíso, e o crocodilo relaxadamente sentado na borda da piscina, de copo na mão e perna traçada, é simplesmente super convidativo (claro que é uma estátua!!!). 
Segundo fiquei a saber, o Chef deste restaurante é Português, pelo que servem pratos de cozinha portuguesa, como Bacalhau Espiritual ou até Torta de Laranja. Uma das minhas colegas provou a torta, cuja apresentação estava divinal. Eu fiquei-me por um sumo de laranja, e mesmo assim o meu orçamento sofreu um pouco. Não há dúvida de que o Hotel é fantástico, desde a arquitetura até às elegantes fardas do staff, mas creio que um jantar aqui será só mais para a frente e nalguma ocasião especial :P

Também em Lecidere, existe um mercado de fruta, com bancas cobertas por telheiros, onde os vendedores expoem os seus produtos, frutas e vegatais, e assim os vendem, em pequenos montinhos ou molhinhos (hei-de postar fotos noutra ocasião). Também nesta zona existe um bom supermercado com muitos produtos portugueses, e até Japoneses!!! Esse supermercado chama-se Lita, e no outro dia aconteceu uma coisa caricata por lá. Estava às compras quando reparei numa senhora asiática que passou por mim, sorri e pensei ‘mais uma estrangeira como eu’. No corredor a seguir encontrei uma menina pequena, também asiática, e com uma cara de preocupada como quem diz ‘Não sei da minha mãe’. Percebi que a mãe deveria ser a senhora que se cruzara comigo e apontei nessa direção para a menina ver. A senhora chega e fala com a menina EM JAPONÊS!!! Não resisti, falei também em japonês perguntando se eram Japonesas. A senhora disse que sim, e quando eu me apresentei e disse que era Portuguesa, ela riu e disse: "O meu marido é Português e a minha filha é metade portuguesa também". Rimos e ainda estivemos um bocadinho a conversar ali, no meio daqueles corredores estreitos e com gente a passar e a olhar. Foi tão giro. Não imaginam o quanto me fez feliz poder voltar a falar Japonês assim, no meio do nada, e que coincidência encontrar justo uma Japonesa casada com um português e com uma filha que, como é costume nestas misturas de sangues, era muito bonita!!!
Há dias em que as coisas que nos acontecem nos deixam bem felizes :D

Tékis em casa :P

Neste país do oriente, a fauna e flora distinguem-se bastante das que existem em Portugal, em Inglaterra ou no Japão. Existem aqui plantas e animais que ainda me são deveras estranhos. Mal cheguei, ouvi falar de uns animais particularmente presentes por aqui: as tekis e os tokés. Até há uns dias ainda não tinha visto nenhum deles. Dizem-me os colegas que as Tekis são aquilo a que se dá o nome de ‘osgas’ em Portugal, mas eu nunca na vida me lembro de ter visto nenhuma. Creio que uma vive no meu quarto, de vez em quando ouço-a. Têm um som muito singular estes bichos, quase um cantar eu diria. Mas até há uns dias, nunca havia visto nenhuma. Uma tarde, quando me dirigi para a cozinha para preparar o jantar, reparei que algo se movia na parede à minha frente. Outro algo se movia no teto por cima da minha cabeça. Depois de olhar em redor, havia ainda uma outra coisa a mexer-se noutro canto do teto. Eram 3 Tekis. Decidiram aparecer para que eu aprendesse o que são. São répteis, mas a sua cor é algo diferente, já que é semelhante a um tom de pele, talvez um bocado mais acastanhado. A sua pele deixa transparecer os olhos, as veias e até a coluna vertebral. Não são particularmente bonitas, mas também não me causaram medo (se me caíssem em cima, a história seria totalmente outra!!!). Deixo-vos com uma pequena foto de uma das três Tekis lá de casa nessa tarde. 

 Provavelmente ainda lá estão, escondidas nas lâmpadas ou noutros recantos, mas entretanto voltaram à sua fase de timidez...por mim, podem continuar tímidas, que não me importo! Num outro momento tive companhia ao banho. Quando estava a preparar-me para tomar um merecido duche tinha uma teki a espreitar pela janela! Creio que a pobre devia estar curiosa sobre os hábitos estranhos destas criaturas que andam sobre duas pernas. Vi-a, ri-me, tirei uma foto e deixei-a à vontade (até porque como estava do lado de fora do vidro, não havia problema!).

Como dizia uma querida amiga minha Japonesa ao deixar Portugal, as experiências de viver sozinhas no estrangeiro fazem-nos capazes de ‘Matar bichos’, ou pelo menos de conviver com eles sem entrar em pânico. Depois das aranhas saltadoras do Japão superei muitos dos meus medos (poderão ler sobre algumas das minhas aventuras aqui: http://nihondevera.blogspot.com), mas ainda não me cruzei com nenhuma aranha por aqui, já soube que são também saltadoras, por isso acho que vou ‘matar saudades’ destas bichezas. 

Descobrindo Timor: Cristo Rei e Praias

Num fim de semana tive a sorte de ir conhecer alguns sítios bonitos de Díli. Uma colega levou-me a conhecer o Cristo-Rei. Trata-se de uma estátua de Jesus Cristo de grandes dimensões, de braços abertos, ao alto em cima de um globo terrestre, que se encontra no cimo de um monte, a olhar para o mar.

Estátua do Cristo Rei

A imagem não é muito diferente daquela que pode ser vista no Pão de Açúcar do Rio de Janeiro, ou na outra margem olhando Lisboa. O caminho até ao cimo é feito através de umas escadas. A subida é longa e, neste clima, torna-se árdua. Mas vale tanto a pena!!! A vista de lá de cima, num pico da ilha, permite ver para os dois lados: para a Praia dos Portugueses (que já se chamou Praia das Nações Unidas, parece) e para a Praia do Cristo-Rei.


Praia dos Portugueses

Praia do Cristo Rei

É lindo, sobretudo por ver aquela água tão límpida e transparente que se estende por vários metros desde o areal. Depois de termos subido, descemos para o lado da Praia dos Portugueses. Trata-se de uma praia com pouco areal, com árvores que chegam quase junto da água, de areia branca e água transparente. Infelizmente, o areal estava muito sujo, com muito lixo espalhado. Explicaram-me depois que algum deste lixo vem pelo mar; parece que costumavam limpar a praia há algum tempo atrás, mas como também é pouco frequentada, parece que deixaram de o fazer. Na verdade, nas quase 3 horas que lá passámos, só vimos umas dez pessoas, espalhadas pela larga baía. Cruzámo-nos com apenas 3 senhores, dois dos quais deveriam ser australianos, mas todos muito simpáticos. Poder estar deitada na praia mas com a sombra de uma bonita árvore foi maravilhoso.

Praia dos Portugueses, com o Cristo Rei ao fundo

A água é simplesmente perfeita, nem muito quente, nem muito fria, mas calçado é obrigatório pois está cheia de pedras que tornam a entrada algo difícil.
Foi um bom momento de relaxamento e de convívio com a natureza. A toda a volta as montanhas de vegetação baixa e rara. O leve bater de ondas pequenas era o único som que cortava o silêncio. Foi uma boa experiência para mim, que não sou particularmente adepta de praia.
Tornámos a subir até meio do percurso para o Cristo-Rei para poder regressar à Praia do Cristo-Rei. Na descida, e depois de salientar como as escadas eram perigosas por as pedras estarem muito polidas e o tamanho dos degraus ser estreito e irregular, eu pude experimentar na primeira pessoa esse perigo: escorreguei e caí num lance de degraus. A minha colega estacou com receio de que eu me tivesse magoado a sério, mas felizmente não tive mais do que algumas nódoas negras, nas partes que efetivamente ficaram a conhecer intimamente os degraus! Realmente, é necessário ter atenção e cuidado a subir e descer estas escadas, o tempo tornou-as muito polidas e por isso escorregam bastante, e nós, seres humanos, não temos a agilidade e o equilíbrio destas cabras do monte que por ali se passeavam (e que devem ter rido às minhas custas!).

Cabra do monte na subida do Cristo Rei

Esta praia é um pouco diferente da dos Portugueses, mas achei-a muito agradável. Tem pouco areal, e o mar permanece numa espécie de baía lagunar por uma boa extensão até finalmente ter ondas. Novamente, calçado é imprescindível, por causa de rochas e pedras.


Praia do Cristo Rei, na maré baixa
Selfie na Praia do Cristo Rei

Quando estavamos cansadas da praia, e na falta de táxis por estes lados, caminhámos durante uns 20 minutos até à Praia da Areia Branca. Pelo caminho pudemos apreciar alguns aspetos pitorescos deste sítio à beira-mar: as curiosas entradas para a praia, sempre com animais ou representações em estátua, e as sombrinhas redondas.


Entrada da praia na Praia do Cristo Rei
Sombrinhas na marginal da Praia do Cristo Rei

Chegámos finalmente à Praia da Areia Branca. Esta praia é uma baía em que a profundidade da água é muito baixa, pelo que alguns colegas chamam-lhe ‘poça’. Quando a maré está cheia a água até é límpida, mas na maré baixa isso não acontece.


Marginal da Praia da Areia Branca
Esplanada na Praia da Areia Branca, a beber uma água de côco

Nesta praia existem algumas esplanadas exploradas por cafés e restaurantes. Experimentei pela primeira vez uma água de côco bem fresquinha e gostei. Foi extremamente refrescante depois de uma longa caminhada debaixo de sol. Almoçámos nesta esplanada, a olhar o mar. Aqui o silêncio não foi muito abundante. Eram vários os grupos de Portugueses que se encontravam na esplanada, a aproveitar o sol e a banhar-se, foi bom estar rodeada de pessoas a falar e a divertir-se, de repente quase que fui ‘transportada’ para Portugal.
E por aqui, pela terra dos crocodilos, os únicos que vi até agora foram estes 3, mas como podem ver, são inofensivos! Estão na estrada de acesso à Praia da Areia Branca.

Monumento com crocodilos junto da Praia da Areia Branca
O problema destes locais, que são bastante deslocados do centro de Díli, é que se torna muito difícil encontrar táxi para regressar. Quando as pessoas têm transporte próprio podem estar descansadas, mas esse não era o nosso caso. Quando pensámos regressar não havia nenhum táxi. Começámos a caminhar na esperança de encontrar algum pelo caminho, mas ainda demoraram mais de 40 minutos até finalmente aparecer um que estivesse livre e nos levasse de volta ao centro. Pelo caminho fomos tentando admirar a paisagem e aproveitar as poucas sombras que nos foram aparecendo.

No caminho de regresso a Lecidere, no centro de Díli

O balanço final foi ótimo: foi um bom passeio, com muito calor e muito sol.