Faz hoje
exatamente um mês que aterrei no aeroporto de Timor, aquele sítio que não me
pareceu um aeroporto e em que percebi que a minha realidade iria ser
substancialmente alterada! O tempo voa demasiado rápido, não sei bem para onde
vai, mas corre sempre, sempre. Tal como sentira no Japão, vejo-me novamente
como o Coelho Branco de relógio em punho a dizer “A minha rainha, a minha
rainha”... (se tiverem curiosidade poderão ver essa história aqui: http://nihondevera.blogspot.com/2008_11_01_archive.html)
Há uns dias
parei, olhei para o calendário e percebi como realmente tudo muda e passa
rápido.Quinta-feira, 11 de setembro de 2014. Parece incrível como o tempo passa
rápido. Ainda há anos estava em casa a ver as duas torres a colapsar,
arrastando para a morte milhares de pessoas de tantos países diferentes, e aqui
estava eu agora, em Timor Leste, a acabar a minha primeira semana de formação.
Para além da formação, que dou a professores formadores de Inglês, tenho também
um horário de apoio aos professores de Inglês na Escola 4 de Setembro, uma
escola junto do INFORDEPE, onde dou a formação.
| Entrada do INFORDEPE |
| Escola 4 de Setembro, Díli |
O balanço
dessa primeira semana foi bastante positivo, o que, para mim, nesse 11 de
setembro teve um gosto especial. A toda a volta a destruição dá lugar a uma
nova vida, seja o fogo que fertiliza as terras na Austrália, seja Hiroshima
renascida das cinzas de uma bomba atómica... a toda a volta a Natureza diz-me
que é possível recomeçar de novo, mais fortes, mais ricos e melhores.
Como é então
uma semana típica de trabalho em Timor Leste? Bem, todos os dias tenho ou a
formação no Infordepe, ou o apoio na 4 de Setembro, ou ambos. Agora estou
também a iniciar o estudo de Tétum, pelo que tenho aulas duas vezes por semana.
Ainda só estou a iniciar, mas o sistema linguístico parece-me muito
compreensível e simples (em comparação com o Português!), notei inclusivamente
algumas pequenas nuances que me pareceram idênticas ao Japonês, mas terei de
aprofundar o estudo para ver se o serão realmente. De casa para o trabalho
temos quase sempre transporte, umas carrinhas assim bem experientes que
balançam nas estradas, sobretudo nas partes de terra batida...cintos? Para quê?!?
| As nossas fantásticas carrinhas |
Até agora as
sessões de formação que dei têm-me dado ânimo. Decorreram sem incidentes, os
formandos conseguiram discutir ideias, partilhar sugestões, refletir em
conjunto sobre vários temas (gestão de aula; forma de conduzir diversas
atividades...); a língua inglesa foi suficiente para assegurar a
intercompreensão e, creio, que estamos a conseguir trabalhar em conjunto. O
tema da unidade em estudo também ajuda, já que falar de Mobilidade e Viagens é sempre um tema que parece agradar.
Dificuldades científicas e pedagógicas não faltam neste sistema de ensino, as
limitações que estes professores enfrentam diariamente nas suas escolas vão
para além daquilo que podemos imaginar (imaginem-se escolas sem eletricidade,
em que uma atividade tão banal em Portugal como ouvir um texto áudio na aula se
torna impossível; imaginem-se alunos sem livros, que para estudar têm de ir
buscar exemplares à biblioteca e que os partilham só durante a aula; imaginem-se
turmas de mais de 50 alunos, em salas fantasmagóricas, de vidros partidos,
quase sem cadeiras ou mesas, pó e terra por todo o lado; galos, galinhas e até
cabras a circular livremente pelo recinto escolar...enfim, realidades que não
conhecemos minimamente!). Infelizmente, a minha turma teve problemas com a sala
que nos estava destinada. Por isso tivemos de nos adaptar: agora as minhas
formações são dadas num hall de um bloco de formações, improvisámos umas
divisórias com estantes, o quadro está em cima de um armário de gavetas e os
alunos sentam-se ao redor de uma grande mesa de madeira.
| "Sala" de Formação de Inglês :) |
Apesar de
ser um espaço improvisado estamos a habituar-nos a ele e, pouco a pouco,
estamos a torná-lo mais nosso, personalizando-o com trabalhos e imagens, acho
que lhe poderemos chamar “Our English Corner”!
O ser humano
adapta-se a tudo. Nunca deixa de me impressionar esta capacidade, esta força
que nos faz habituar a tudo. Também eu me estou a habituar aqui, lentamente. Já
se torna mais fácil circular nesta cidade desconhecida, já consigo atravessar
as ruas apesar dos movimentos serpenteantes de carros, motas, carrinhas e
afins... Já me habituei aos olhares, aos ‘Bons dias’ e ‘Boas Tardiiiiis’, aos
cuidados com os mosquitos (felizmente ainda estamos na época seca, em que há menos!).
No breve mês
desde que cheguei já houve progressos notórios. Junto da Escola 4 De Setembro a
grande estrada era de terra batida (que iam molhando durante o dia, mas que
mesmo assim a cada passagem de carros, carrinhas e camiões, se desvanecia em núvens
de pó e terra a voar em todas as direções. Chegar até à escola era penoso.
Respirar tornava-se quase suicida! Agora finalmente está a ser alcatroada e a
paisagem alterou-se significativamente para melhor!!!
| Estrada antes de ser alcatroada |
| Estrada ao fundo, já depois de alcatroada (sem poeira!) |
Eu tenho
por hábito trazer écharpes para poder tapar a boca e o nariz, mas mesmo assim, toda
essa poeirada estava a dar comigo em doida! Para a escola, nas condições em que
temos de trabalhar, só me atrevo a vestir calças de ganga e calçar botas de
montanhismo. Os meus colegas riem. Eles andam com tecidos mais leves e até de
sandálias, mas eu não me consigo imaginar neste lugar assim.
| Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro |
| Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro |
Suporto bem
o calor, transpiro um pouco mais, mas sinto-me mais segura assim, por isso acho
que vou continuar a ser uma ‘strange legal alien’. Quando chego à sala de
trabalho da escola, começo o meu ritual: limpar a mesa onde vou trabalhar com
papel, limpar a cadeira onde me vou sentar, limpar ainda o balcão onde vou
colocar a mochila, tirar a base de plástico que comprei para pôr por baixo do
portátil, limpar o portátil e, finalmente, começar a trabalhar. Não sei se o
tempo me fará quebrar este ritual, imagino que a habituação e a adaptação
também passem por aí, mas para já, estes rituais fazem-me ter a ilusão da
segurança e do controlo e deixam-me menos ansiosa. Mas sabem? Existe um aspeto
positivo de ter uma sala com janelas partidas ou inexistentes: todos os dias
tenho a companhia de passarinhos enquanto trabalho, divirto-me a vê-los aos
saltinhos no chão e pelas mesas. Nem tudo é só bom ou mau!
| Não se percebe bem, mas está um pássaro no balcão por trás da mesa com o pano azul. |
O bairro
onde vivo é agradável ainda que, como habitual, vá tendo os seus problemas
pontuais. Ultimamente é o sistema de canalizações que não se encontra tão bem,
pelo que uma equipa tem andado a trabalhar para ter tudo melhor antes da
chegada da época das chuvas. Existem muitos gatos no bairro, uma das gatinhas
teve bebés. Vi-a há uns dias, descansadamente a dormir por baixo de um jipe,
com um dos bebés a dormir enrolado junto da barriga dela. São uns fofos, mas
não são propriamente domésticos, pelo que não lhes posso tocar. Contento-me a
vê-los, na sua liberdade de gatos, em que tudo o que são só a eles pertence.
| O Bairro de Vila Verde |
| Os gatos do bairro :) |
Pois é, já
passou um mês desde que cheguei a Timor Leste. O tempo realmente foge-me
fugazmente, bem que tento mas não o consigo apanhar. Isso é o que demais
presente tenho em mim hoje. Desde que cheguei já aconteceu um turbilhão de
coisas, já conheci, vivi e experimentei muitas coisas, emoções, situações...mas
continua a parecer que ainda ontem estava na minha casa em Portugal a imaginar
como seria a vida nesta realidade. Agora estou aqui, estou bem, sinto que esta
experiência me vai fazer crescer e tornar-me uma pessoa diferente. Não gosto da
ideia epicurista do Carpe Diem, mas estou a tentar viver sem pensar demasiado
no futuro, vamos andando e vendo ;) Hoje é o Sting quem me acompanha, e como
ele também eu sou uma “... legal alien” só que eu sou uma Portuguesa em Díli
(poderão ouvi-lo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=d27gTrPPAyk)
| Eu estou aqui: em Timor Leste! |