sábado, 27 de setembro de 2014

Hoje, olho o passado e imagino o futuro

Faz hoje exatamente um mês que aterrei no aeroporto de Timor, aquele sítio que não me pareceu um aeroporto e em que percebi que a minha realidade iria ser substancialmente alterada! O tempo voa demasiado rápido, não sei bem para onde vai, mas corre sempre, sempre. Tal como sentira no Japão, vejo-me novamente como o Coelho Branco de relógio em punho a dizer “A minha rainha, a minha rainha”... (se tiverem curiosidade poderão ver essa história aqui: http://nihondevera.blogspot.com/2008_11_01_archive.html)

Há uns dias parei, olhei para o calendário e percebi como realmente tudo muda e passa rápido.Quinta-feira, 11 de setembro de 2014. Parece incrível como o tempo passa rápido. Ainda há anos estava em casa a ver as duas torres a colapsar, arrastando para a morte milhares de pessoas de tantos países diferentes, e aqui estava eu agora, em Timor Leste, a acabar a minha primeira semana de formação. Para além da formação, que dou a professores formadores de Inglês, tenho também um horário de apoio aos professores de Inglês na Escola 4 de Setembro, uma escola junto do INFORDEPE, onde dou a formação.
Entrada do INFORDEPE
Escola 4 de Setembro, Díli




















O balanço dessa primeira semana foi bastante positivo, o que, para mim, nesse 11 de setembro teve um gosto especial. A toda a volta a destruição dá lugar a uma nova vida, seja o fogo que fertiliza as terras na Austrália, seja Hiroshima renascida das cinzas de uma bomba atómica... a toda a volta a Natureza diz-me que é possível recomeçar de novo, mais fortes, mais ricos e melhores.
Como é então uma semana típica de trabalho em Timor Leste? Bem, todos os dias tenho ou a formação no Infordepe, ou o apoio na 4 de Setembro, ou ambos. Agora estou também a iniciar o estudo de Tétum, pelo que tenho aulas duas vezes por semana. Ainda só estou a iniciar, mas o sistema linguístico parece-me muito compreensível e simples (em comparação com o Português!), notei inclusivamente algumas pequenas nuances que me pareceram idênticas ao Japonês, mas terei de aprofundar o estudo para ver se o serão realmente. De casa para o trabalho temos quase sempre transporte, umas carrinhas assim bem experientes que balançam nas estradas, sobretudo nas partes de terra batida...cintos? Para quê?!?
As nossas fantásticas carrinhas

 Estas pequenas deslocações são sempre aventuras: carros a espremerem-se em ruas estreitas e com grandes valas de esgotos de cada lado, pessoas a andar por todo o lado, as gincanas das motas, as corridas dos galos a atravessar as ruas...enfim, nunca deixam de me espantar! O meu trabalho decorre dentro de uma rotina que já me começa a parecer normal e tenho ficado positivamente surpreendida com a participação dos formandos. Os professores do apoio nem sempre aparecem, mas 3 deles começam já a ser assíduos. Num país que ainda está no seu início, numa sociedade com regras tão diferentes, há algumas barreiras que nem sempre conseguimos transpor. Ser mulher, ser jovem, ser ‘malai’ (estrangeiro/a),...estas e muitas outras circunstâncias podem ser fatores que condicionam a nossa receção. Não é nada de extraordinário, e muito menos delimitado a esta realidade. Tudo isto faz parte da nossa profissão e formação. É necessário ter sempre presente que estamos num país de diferentes costumes, de diferentes ideologias e que temos de nos adaptar à realidade, em vez de esperar que a realidade se adapte a nós.
Até agora as sessões de formação que dei têm-me dado ânimo. Decorreram sem incidentes, os formandos conseguiram discutir ideias, partilhar sugestões, refletir em conjunto sobre vários temas (gestão de aula; forma de conduzir diversas atividades...); a língua inglesa foi suficiente para assegurar a intercompreensão e, creio, que estamos a conseguir trabalhar em conjunto. O tema da unidade em estudo também ajuda, já que falar de Mobilidade e Viagens é sempre um tema que parece agradar. Dificuldades científicas e pedagógicas não faltam neste sistema de ensino, as limitações que estes professores enfrentam diariamente nas suas escolas vão para além daquilo que podemos imaginar (imaginem-se escolas sem eletricidade, em que uma atividade tão banal em Portugal como ouvir um texto áudio na aula se torna impossível; imaginem-se alunos sem livros, que para estudar têm de ir buscar exemplares à biblioteca e que os partilham só durante a aula; imaginem-se turmas de mais de 50 alunos, em salas fantasmagóricas, de vidros partidos, quase sem cadeiras ou mesas, pó e terra por todo o lado; galos, galinhas e até cabras a circular livremente pelo recinto escolar...enfim, realidades que não conhecemos minimamente!). Infelizmente, a minha turma teve problemas com a sala que nos estava destinada. Por isso tivemos de nos adaptar: agora as minhas formações são dadas num hall de um bloco de formações, improvisámos umas divisórias com estantes, o quadro está em cima de um armário de gavetas e os alunos sentam-se ao redor de uma grande mesa de madeira.
"Sala" de Formação de Inglês :)
Apesar de ser um espaço improvisado estamos a habituar-nos a ele e, pouco a pouco, estamos a torná-lo mais nosso, personalizando-o com trabalhos e imagens, acho que lhe poderemos chamar “Our English Corner”!
O ser humano adapta-se a tudo. Nunca deixa de me impressionar esta capacidade, esta força que nos faz habituar a tudo. Também eu me estou a habituar aqui, lentamente. Já se torna mais fácil circular nesta cidade desconhecida, já consigo atravessar as ruas apesar dos movimentos serpenteantes de carros, motas, carrinhas e afins... Já me habituei aos olhares, aos ‘Bons dias’ e ‘Boas Tardiiiiis’, aos cuidados com os mosquitos (felizmente ainda estamos na época seca, em que há menos!).
No breve mês desde que cheguei já houve progressos notórios. Junto da Escola 4 De Setembro a grande estrada era de terra batida (que iam molhando durante o dia, mas que mesmo assim a cada passagem de carros, carrinhas e camiões, se desvanecia em núvens de pó e terra a voar em todas as direções. Chegar até à escola era penoso. Respirar tornava-se quase suicida! Agora finalmente está a ser alcatroada e a paisagem alterou-se significativamente para melhor!!!
Estrada antes de ser alcatroada

Estrada ao fundo, já depois de alcatroada (sem poeira!)






























Eu tenho por hábito trazer écharpes para poder tapar a boca e o nariz, mas mesmo assim, toda essa poeirada estava a dar comigo em doida! Para a escola, nas condições em que temos de trabalhar, só me atrevo a vestir calças de ganga e calçar botas de montanhismo. Os meus colegas riem. Eles andam com tecidos mais leves e até de sandálias, mas eu não me consigo imaginar neste lugar assim. 

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro

Sala de trabalho, Escola 4 de Setembro



































Suporto bem o calor, transpiro um pouco mais, mas sinto-me mais segura assim, por isso acho que vou continuar a ser uma ‘strange legal alien’. Quando chego à sala de trabalho da escola, começo o meu ritual: limpar a mesa onde vou trabalhar com papel, limpar a cadeira onde me vou sentar, limpar ainda o balcão onde vou colocar a mochila, tirar a base de plástico que comprei para pôr por baixo do portátil, limpar o portátil e, finalmente, começar a trabalhar. Não sei se o tempo me fará quebrar este ritual, imagino que a habituação e a adaptação também passem por aí, mas para já, estes rituais fazem-me ter a ilusão da segurança e do controlo e deixam-me menos ansiosa. Mas sabem? Existe um aspeto positivo de ter uma sala com janelas partidas ou inexistentes: todos os dias tenho a companhia de passarinhos enquanto trabalho, divirto-me a vê-los aos saltinhos no chão e pelas mesas. Nem tudo é só bom ou mau!
Não se percebe bem, mas está um pássaro no balcão por trás da mesa com o pano azul.
O bairro onde vivo é agradável ainda que, como habitual, vá tendo os seus problemas pontuais. Ultimamente é o sistema de canalizações que não se encontra tão bem, pelo que uma equipa tem andado a trabalhar para ter tudo melhor antes da chegada da época das chuvas. Existem muitos gatos no bairro, uma das gatinhas teve bebés. Vi-a há uns dias, descansadamente a dormir por baixo de um jipe, com um dos bebés a dormir enrolado junto da barriga dela. São uns fofos, mas não são propriamente domésticos, pelo que não lhes posso tocar. Contento-me a vê-los, na sua liberdade de gatos, em que tudo o que são só a eles pertence. 
O Bairro de Vila Verde
















Os gatos do bairro :)
















Pois é, já passou um mês desde que cheguei a Timor Leste. O tempo realmente foge-me fugazmente, bem que tento mas não o consigo apanhar. Isso é o que demais presente tenho em mim hoje. Desde que cheguei já aconteceu um turbilhão de coisas, já conheci, vivi e experimentei muitas coisas, emoções, situações...mas continua a parecer que ainda ontem estava na minha casa em Portugal a imaginar como seria a vida nesta realidade. Agora estou aqui, estou bem, sinto que esta experiência me vai fazer crescer e tornar-me uma pessoa diferente. Não gosto da ideia epicurista do Carpe Diem, mas estou a tentar viver sem pensar demasiado no futuro, vamos andando e vendo ;) Hoje é o Sting quem me acompanha, e como ele também eu sou uma “... legal alien” só que eu sou uma Portuguesa em Díli (poderão ouvi-lo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=d27gTrPPAyk)
Eu estou aqui: em Timor Leste!



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