Estava eu
descansadamente a falar por skype com a família e, eis que, quatro sons de
fazer gelar o sangue nas veias se fazem ouvir. Ingenuamente eu digo quase para
os meus botões “Será que são tiros?” E depois penso que estou a extrapolar demasiado, e dispenso essas ideias ao pensar que há sempre obras a
acontecer no Ministério da Educação, por detrás do meu quarto (lugar de onde os
sons pareciam vir). Continua-se a conversa à distância de um clique e no meio
de risos e saudades a serem mortas sou interrompida para ver um fenómeno único
a acontecer nesse momento. A lua no céu veste-se de vermelho sangue e quase
mais não é do que uma mera sombra gasosa da sua forma cheia. O céu é escuro e
a ausência de luz contrasta fortemente com a magnitude de ruídos que se faz
ouvir. Metal a bater em metal, mais sons ritombantes, enfim, um verdadeiro
chinfrim. Explicam-me, que sou nova nestas bandas, que se trata de um ritual de
superstição que os Timorenses cumprem quando se dão fenómenos naturais tal como
aquele que presencio agora (mas também quando sentem tremores de terra).
Descansadamente, pessoas bem mais acostumadas a esta terra do que eu, explicam
que efetivamente os sons que eu achei ter confundido com tiros, muito
provavelmente o seriam! Nada a temer, no entanto, tratava-se apenas de uma
expressão ritualesca face ao eclipse. Registar este momento de estranha beleza
e misticismo é que prova ser realmente um desafio, já que as máquinas
fotográficas e afins se recusam a capturar a cena em toda a sua magia e, ao
invés disso, limitam-se a apresentar um céu negro e limpo. Fica a imagem na
memória, da lua a vibrar em tons vermelhos-alaranjados, daqueles que se lêem
pela pena de Shelley, Stocker ou Poe – com a imaginação a funcionar, no meio
dos ruídos e das populações em êxtase de euforia, quase seria de esperar que os
morcegos que nos sobrevoavam se transformassem em hipnotizantes vampiros... Mas,
alás, nada disso teve lugar se não nesta minha imaginação tão influenciada
pelas penas da literatura gótica...
| Lua completamente na sombra da Terra |
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