Faz
exatamente um mês que saí de Portugal. Para assinalar esta data gostaria hoje
de partilhar algo que escrevi no ano passado, por volta desta altura. Trata-se
de um texto que escrevi a convite de um núcleo de uma organização internacional
de solidariedade social, chamada curiosamente de Academia do Bacalhau. Neste
texto, procurei refletir sobre o significado de ser Cidadão do Mundo, e hoje,
mais do que nunca, as palavras que escrevi renovam todo o seu sentido. Peço
desculpa por ser um texto longo!
“Cidadão do
mundo
No outro
dia, a conversar com uma amiga e o seu pai, disse-nos ele “Eu sou um cidadão do
mundo. Não sou Português ou Espanhol, sou um cidadão do mundo”. As suas
palavras ressoaram na minha mente durante todos estes dias e isso levou-me a
questionar o significado daquilo que ele dissera.
Sei que
viajou extensivamente, que viveu realidades e culturas distintas, mas tantas
outras pessoas também o viveram e, no entanto, nunca nenhuma delas afirmara
algo assim sobre si próprio(a). Não, ser cidadão do mundo tem de envolver bem
mais do que isso, mas de certa forma acho que cheguei a compreender o que ele
queria dizer.
Sou hoje uma
professora de línguas formada há vários anos, mas, por força das circunstâncias,
vejo-me ainda como uma ‘jovem’. Não pela minha idade, que não é muita, é certo,
mas sobretudo porque para se ser ‘jovem’ como eu sou, e tantos outros que
conheço, a definição incide mais sobre uma certa incerteza existencial
contínua. Sou jovem demais para pensar em formar uma família; sou demasiado
jovem para poder assumir a responsabilidade da minha vida ou para ser
independente dos meus queridos pais, sou ainda muito jovem...uma jovem de 30
anos qualquer dia, um caso absolutamente típico nos nossos dias. Mas ao longo
destes anos tenho vindo, cada vez mais a questionar esta circunstância da vida
dos nossos tempos: ser cidadão do mundo.
Como o pai
da minha amiga, também já vivi fora de Portugal, fora desta conchinha onde
nasci e cresci, nesta terra à beira mar que se orgulha do mar e da ria, que se
orgulha de ser terra de bravos homens de mar e de corajosas mulheres da terra.
Desta minha terra de que sempre ouvi dizer que é a terra do fiel amigo, esse
nosso bem conhecido Gadus Morhua, a
que tão ternamente em Portugal conhecemos como Bacalhau. Curiosamente, é este
fiel amigo quem me ajuda a compreender o que é ser um cidadão do mundo.
Toda a minha
vida tive um orgulho enorme de ser de onde sou. Ainda hoje tenho aquele
brilhozinho nos olhos quando digo de onde venho, e as palavras saiem da minha
boca com um impacto diferente das demais. Este orgulho vejo-o e percebo-o em
tantas pessoas que me são próximas, inclusivamente no meu querido pai que nunca
desejou viver noutra terra que não esta, e hoje se vê a viver bem longe dela
pela também força das circunstâncias. Eu, pelo contrário, sempre sonhei com
viagens e outros mundos. Desde cedo que queria embarcar na descoberta de outros
sítios, outras culturas e outras realidades. Mas contactar com coisas
diferentes pode abalar as nossas convicções e aquilo que temos como certo,
resta saber se esses abalos são negativos ou positivos, ou se isso sequer
importa!
O meu
primeiro grande terramoto neste etnocentrismo que carregava em mim, deu-se aos
meus 9 anos, com o início da aprendizagem de uma nova língua, uma que era
estrangeira, e que, segundo minha escolha, era o Inglês. Tudo nesta língua era
diferente daquilo que eu tão bem conhecia... tudo era tão diferente, mas nunca
me pareceu estranho. Nesta língua, quando a vesti, aprendi que o mundo não
precisa de estar sempre dividido em Masculino e Feminino; a palavra ‘friend’
não implica se é amigo ou é amiga, só importa o laço de amizade com que
connosco alguém teceu. Esta constatação foi maravilhosa nos meus olhos, e vesti
o Inglês como nunca mais consegui, até hoje, vestir nenhuma outra língua – à
exceção claro está, da minha própria pele que se chama Português.
Dois anos
mais tarde, o meu mundo torna a ser abalado, mas desta vez o abalo tocou-me num
ponto particularmente sensível. O Mar, este elemento tão caro ao meu coração,
este elemento que tanto (des)une os meus conterrâneos, esse mar que tão
Português é, que até o seu sal proveio das lágrimas lusitanas, o meu mar
deixava de ser masculino e diziam, passava a ser feminino. La mer, dizia-me o Francês e eu não gostei. Achei que não tinham
nada que alterar o género do mar; uma coisa é não ter género, mas alterarem
aquilo em que eu sempre acreditara chocou-me! Quiçá não terá sido essa a grande
razão para a minha resistência a essa língua... Aprender línguas vai-nos dando
pequenos terramotos que, como disse, abalam as nossas convicções, que deturpam
aquilo que para nós é tão certo... e por isso mesmo, aprender línguas
estrangeiras é uma experiência de humildade (disse-me um grande professor
americano, de seu nome Fantini), e esse é o primeiro grande passo.
Tudo o que é
diferente causa em nós um sentimento de insegurança. Não nos revemos, e esse
não se rever, não saber o que o Outro é, pensa, faz, quer... esse não saber,
causa em nós um medo que nos acorrenta. Já bem consciente da existência no
mundo de culturas diferentes, depois de ser já durante anos uma discípula
assídua de novas línguas, literaturas e culturas (sobretudo pela minha educação
superior em Ensino de Português e Inglês), parti, no meu terceiro ano da
universidade, para uma das maiores aventuras da minha vida: ser Erasmus. Como
Erasmus de Roterdão, também eu rumei a outro país para aí aprender coisas
novas. Southampton acolheu-me de braços abertos e nela me senti mais viva, mais
adulta e mais eu do que até então. Erasmus foi a minha bolha, vivi fora mas
dentro de uma cultura que em muitas coisas se assemelhava com a minha. No
entanto, alturas houve em que fui testada nos meus limites da aceitação do
Outro, e sobretudo na aceitação da Diferença... Lembro o episódio curioso da
minha chegada à cidade. Saída de um avião em Londres, e depois de uma viagem de
2 horas de autocarro, finalmente cheguei a Southampton, onde, na estação de
autocarros, tirei um ticket e esperei por um táxi para me levar à minha
residência. Eis que o meu número é chamado, pisca o 84 no placar e eu vejo, na
minha frente, um senhor muito alto, muito entroncado, com a pele muito negra,
com rastas pelo meio das costas, vestido nas cores Jamaicanas (verde, amarelo e
vermelho) e a chamar o meu número no típico sotaque inglês das ilhas...Fiquei
sem reação, não sabia se deveria entrar no táxi ou não, porque a diferença
dessa pessoa me abalou. De volta à consciência de mim, essa fração de segundo
em que hesitei, desvaneceu-se e foi com uma dose grande de ‘reprovação pessoal’
que entrei no táxi e fui para a minha residência. Este senhor, provou ser uma
das pessoas mais simpáticas com quem interagi em Southampton, levou-me
diretamente para o destino, ajudou-me com as malas muito mais do que o que lhe
competia, e fez-me ver o quão injusto o nosso receio da Diferença pode ser.
Viver fora, numa nova cultura, numa nova realidade, é assim, na minha opinião,
o segundo passo.
Aprender a
realmente ver o Outro, a compreender o Outro, a aceitar o Outro. É isto que é
fulcral na estrada para a aldeia global de que tanto se fala. Mas a teoria é
uma, e a prática é bem distinta. Com a minha grande bagagem sobre a interação
com pessoas de diferentes culturas, lancei-me de cabeça, mal me licenciei, num
doutoramento que me levasse até ao meu sonho: o Japão. Embarquei nesta aventura
há cinco anos e ainda hoje a minha saga continua...Esta saga levou-me à maior
das minhas conquistas, viver em Tóquio durante um ano, e aí pude: respirar a
cultura nipónica, saborear a sua língua tão distinta das que já conhecia...Tudo
era diferente. Por terras de sol nascente vivi episódios caricatos e conheci
imensas pessoas interessantes. O silêncio sepulcral da multidão da grande
capital chocou-me, mas os barulhentos habitantes de Osaka conquistaram-me. Por
Hiroshima deixei-me dilacerar pelas memórias atómicas de um passado não muito
distante, mas deleitar na humildade e simpatia das suas gentes que, pela
primeira vez no Japão, me trataram como ‘normal’. Pelo meu sotaque e domínio do
Inglês houve alturas em que me tomaram por cidadã americana, mas sempre fiz
questão de demarcar a minha existência Europeia, que lhes agradava mais, e a
minha nacionalidade lusa que os levava invariavelmente ao mesmo comentário:
“Visitei o Cabo da Roca!” – e perguntam-se agora vocês, como eu perguntei
também: “Porquê o Cabo da Roca? O que faz alguém atravessar metade do globo,
até ao nosso paraíso à beira-mar plantado, para ver o Cabo da Roca???”,
respondiam-me eles cheios de respeito: “A ponta mais ocidental da Europa; o fim
do continente Europeu”, e sorrio ainda hoje ao lembrar o quanto para eles este
sítio se enchia de significado. O fim da terra deu-nos o nosso legado marítimo,
e para um povo insular como o Japonês, os pontos que marcam os fins e os
inícios são quase sagrados. Quantas destas singularidades vivi no Japão...
Esta
aventura épica teve momentos de sonho e de pesadelo, até para alguém como eu,
tão teoricamente consciente dos desafios da interação intercultural – a estudar
precisamente isso no âmbito da minha investigação. Martins Janeira, antigo embaixador
português no Japão, escreveu um dia:
“o
Oriente abriu novas gamas na minha sensibilidade, deu firmeza às minhas raízes
e alargou a minha visão intelectual, aprofundou e alargou o meu humanismo –
tornou-me mais português e mais universal. [...] Também eu, lá longe, me senti
muita vez abandonado e sofri a saudade da minha terra.”
Faço minhas
as suas palavras, porque ao lê-las me revejo inteira nelas. Não seria quem sou
hoje não fora o Oriente. No contacto com o Outro conhecemo-nos a nós próprios.
Nem sempre sou capaz de ser como acho que deveria ser, tão tolerante como sinto
que deveria ser, nem tão capaz de aceitar a diferença como tenho motivos para o
fazer; mas se há coisa que nunca me abandona é a consciência disso mesmo.
Naqueles momentos escuros em que penso ‘Porque é que são assim? Porque é que
vivem assim? Porque é que não são mais como nós?’ uma parte de mim desprende-se
e olha-me de fora, chamando-me à razão e demonstrando-me o caminho que ainda
tenho de percorrer. E nessa consciência procuro envolver-me, aqui mesmo na
minha terra, aqui no meu porto de abrigo onde as minhas raízes estão bem
presas, procuro então envolver-me com o máximo de pessoas possível, sobretudo
estrangeiras, para com elas poder continuar a minha caminhada. Entendo neste
convívio com a diferença, o terceiro passo para alguém chegar a ser um cidadão
do mundo.
Mas onde
entra o bacalhau perguntam-me...Pois o bacalhau está em todos estes passos.
Recentemente a terra de onde sou encheu-se de orgulho e inaugurou um aquário de
bacalhaus. Na terra que se dedicou a apanhar e manipular bacalhau, levando-o à
mesa de todos, existe agora um espaço para que as nossas crianças, jovens,
adultos e seniores, possam finalmente admirar o fiel amigo em toda a sua viva
existência. Vê-lo nadar nesse aquário, absorto na sua existência, a ser
admirado por pessoas de todas as idades e nacionalidades mostra-nos como é
querido e respeitado universalmente este fiel amigo. Nós, portugueses, dizemos
que o bacalhau é nosso, pois, como ninguém desenvolvemos o seu uso na gastronomia,
no entanto, este ‘nosso’ bacalhau é um estrangeiro nas nossas terras. Foi
necessário sempre cruzar os mares para o ir buscar. O Bacalhau levou-nos a
viajar e a conhecer novas culturas. Para além disso, não conheci ainda nenhum
povo que não apreciasse o bacalhau – já viram algum estrangeiro partir de Portugal
sem provar e deliciar-se com uma boa posta desta iguaria? Eu nunca vi. Mais
caro ou mais barato, inteiro ou em postas, seco ou congelado, até do outro lado
do mundo o bacalhau se encontra à venda, e ninguém o deixa de comprar por
pertencer a este ou àquele sítio.
Como o
Bacalhau também devemos nós tentar ser cidadãos do mundo: nadar num aquário da
mesma forma que no Oceano, porque o que interessa para a nossa existência não é
só o sítio de onde somos, mas aquilo que temos dentro de nós onde quer que
estejamos; dividir o nosso espaço com outros bem diferentes de nós, mas
respeitando que apesar de todas as nossas difereças integramos todos uma
denominação comum: a de ser humano; e integrar cada cultura, não para deturpar
o que nela já existia, mas para enriquecê-la com a nossa singularidade.
O caminho
para ser ‘cidadão do mundo’, na minha humilde opinião, passa por: conservar e
reconhecer a importância das nossas raízes aprendendo a viver em todo o lado,
com a consciência de que o mais importante está sempre dentro de nós; sentir a
humanidade como nossa família, respeitando e procurando compreender os outros
na sua Diferença (ainda que mesmo não aceitando), porque é a diversidade que
nos enriquece a todos; sentir como nossas as dificuldades que são vividas por
outros seres humanos por esse mundo fora e procurar ajudá-los como pudermos. Setembro, 2013”
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