quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Um mês: a partida

Faz exatamente um mês que saí de Portugal. Para assinalar esta data gostaria hoje de partilhar algo que escrevi no ano passado, por volta desta altura. Trata-se de um texto que escrevi a convite de um núcleo de uma organização internacional de solidariedade social, chamada curiosamente de Academia do Bacalhau. Neste texto, procurei refletir sobre o significado de ser Cidadão do Mundo, e hoje, mais do que nunca, as palavras que escrevi renovam todo o seu sentido. Peço desculpa por ser um texto longo!

“Cidadão do mundo
No outro dia, a conversar com uma amiga e o seu pai, disse-nos ele “Eu sou um cidadão do mundo. Não sou Português ou Espanhol, sou um cidadão do mundo”. As suas palavras ressoaram na minha mente durante todos estes dias e isso levou-me a questionar o significado daquilo que ele dissera.
Sei que viajou extensivamente, que viveu realidades e culturas distintas, mas tantas outras pessoas também o viveram e, no entanto, nunca nenhuma delas afirmara algo assim sobre si próprio(a). Não, ser cidadão do mundo tem de envolver bem mais do que isso, mas de certa forma acho que cheguei a compreender o que ele queria dizer.
Sou hoje uma professora de línguas formada há vários anos, mas, por força das circunstâncias, vejo-me ainda como uma ‘jovem’. Não pela minha idade, que não é muita, é certo, mas sobretudo porque para se ser ‘jovem’ como eu sou, e tantos outros que conheço, a definição incide mais sobre uma certa incerteza existencial contínua. Sou jovem demais para pensar em formar uma família; sou demasiado jovem para poder assumir a responsabilidade da minha vida ou para ser independente dos meus queridos pais, sou ainda muito jovem...uma jovem de 30 anos qualquer dia, um caso absolutamente típico nos nossos dias. Mas ao longo destes anos tenho vindo, cada vez mais a questionar esta circunstância da vida dos nossos tempos: ser cidadão do mundo.
Como o pai da minha amiga, também já vivi fora de Portugal, fora desta conchinha onde nasci e cresci, nesta terra à beira mar que se orgulha do mar e da ria, que se orgulha de ser terra de bravos homens de mar e de corajosas mulheres da terra. Desta minha terra de que sempre ouvi dizer que é a terra do fiel amigo, esse nosso bem conhecido Gadus Morhua, a que tão ternamente em Portugal conhecemos como Bacalhau. Curiosamente, é este fiel amigo quem me ajuda a compreender o que é ser um cidadão do mundo.
Toda a minha vida tive um orgulho enorme de ser de onde sou. Ainda hoje tenho aquele brilhozinho nos olhos quando digo de onde venho, e as palavras saiem da minha boca com um impacto diferente das demais. Este orgulho vejo-o e percebo-o em tantas pessoas que me são próximas, inclusivamente no meu querido pai que nunca desejou viver noutra terra que não esta, e hoje se vê a viver bem longe dela pela também força das circunstâncias. Eu, pelo contrário, sempre sonhei com viagens e outros mundos. Desde cedo que queria embarcar na descoberta de outros sítios, outras culturas e outras realidades. Mas contactar com coisas diferentes pode abalar as nossas convicções e aquilo que temos como certo, resta saber se esses abalos são negativos ou positivos, ou se isso sequer importa!
O meu primeiro grande terramoto neste etnocentrismo que carregava em mim, deu-se aos meus 9 anos, com o início da aprendizagem de uma nova língua, uma que era estrangeira, e que, segundo minha escolha, era o Inglês. Tudo nesta língua era diferente daquilo que eu tão bem conhecia... tudo era tão diferente, mas nunca me pareceu estranho. Nesta língua, quando a vesti, aprendi que o mundo não precisa de estar sempre dividido em Masculino e Feminino; a palavra ‘friend’ não implica se é amigo ou é amiga, só importa o laço de amizade com que connosco alguém teceu. Esta constatação foi maravilhosa nos meus olhos, e vesti o Inglês como nunca mais consegui, até hoje, vestir nenhuma outra língua – à exceção claro está, da minha própria pele que se chama Português.
Dois anos mais tarde, o meu mundo torna a ser abalado, mas desta vez o abalo tocou-me num ponto particularmente sensível. O Mar, este elemento tão caro ao meu coração, este elemento que tanto (des)une os meus conterrâneos, esse mar que tão Português é, que até o seu sal proveio das lágrimas lusitanas, o meu mar deixava de ser masculino e diziam, passava a ser feminino. La mer, dizia-me o Francês e eu não gostei. Achei que não tinham nada que alterar o género do mar; uma coisa é não ter género, mas alterarem aquilo em que eu sempre acreditara chocou-me! Quiçá não terá sido essa a grande razão para a minha resistência a essa língua... Aprender línguas vai-nos dando pequenos terramotos que, como disse, abalam as nossas convicções, que deturpam aquilo que para nós é tão certo... e por isso mesmo, aprender línguas estrangeiras é uma experiência de humildade (disse-me um grande professor americano, de seu nome Fantini), e esse é o primeiro grande passo.
Tudo o que é diferente causa em nós um sentimento de insegurança. Não nos revemos, e esse não se rever, não saber o que o Outro é, pensa, faz, quer... esse não saber, causa em nós um medo que nos acorrenta. Já bem consciente da existência no mundo de culturas diferentes, depois de ser já durante anos uma discípula assídua de novas línguas, literaturas e culturas (sobretudo pela minha educação superior em Ensino de Português e Inglês), parti, no meu terceiro ano da universidade, para uma das maiores aventuras da minha vida: ser Erasmus. Como Erasmus de Roterdão, também eu rumei a outro país para aí aprender coisas novas. Southampton acolheu-me de braços abertos e nela me senti mais viva, mais adulta e mais eu do que até então. Erasmus foi a minha bolha, vivi fora mas dentro de uma cultura que em muitas coisas se assemelhava com a minha. No entanto, alturas houve em que fui testada nos meus limites da aceitação do Outro, e sobretudo na aceitação da Diferença... Lembro o episódio curioso da minha chegada à cidade. Saída de um avião em Londres, e depois de uma viagem de 2 horas de autocarro, finalmente cheguei a Southampton, onde, na estação de autocarros, tirei um ticket e esperei por um táxi para me levar à minha residência. Eis que o meu número é chamado, pisca o 84 no placar e eu vejo, na minha frente, um senhor muito alto, muito entroncado, com a pele muito negra, com rastas pelo meio das costas, vestido nas cores Jamaicanas (verde, amarelo e vermelho) e a chamar o meu número no típico sotaque inglês das ilhas...Fiquei sem reação, não sabia se deveria entrar no táxi ou não, porque a diferença dessa pessoa me abalou. De volta à consciência de mim, essa fração de segundo em que hesitei, desvaneceu-se e foi com uma dose grande de ‘reprovação pessoal’ que entrei no táxi e fui para a minha residência. Este senhor, provou ser uma das pessoas mais simpáticas com quem interagi em Southampton, levou-me diretamente para o destino, ajudou-me com as malas muito mais do que o que lhe competia, e fez-me ver o quão injusto o nosso receio da Diferença pode ser. Viver fora, numa nova cultura, numa nova realidade, é assim, na minha opinião, o segundo passo.
Aprender a realmente ver o Outro, a compreender o Outro, a aceitar o Outro. É isto que é fulcral na estrada para a aldeia global de que tanto se fala. Mas a teoria é uma, e a prática é bem distinta. Com a minha grande bagagem sobre a interação com pessoas de diferentes culturas, lancei-me de cabeça, mal me licenciei, num doutoramento que me levasse até ao meu sonho: o Japão. Embarquei nesta aventura há cinco anos e ainda hoje a minha saga continua...Esta saga levou-me à maior das minhas conquistas, viver em Tóquio durante um ano, e aí pude: respirar a cultura nipónica, saborear a sua língua tão distinta das que já conhecia...Tudo era diferente. Por terras de sol nascente vivi episódios caricatos e conheci imensas pessoas interessantes. O silêncio sepulcral da multidão da grande capital chocou-me, mas os barulhentos habitantes de Osaka conquistaram-me. Por Hiroshima deixei-me dilacerar pelas memórias atómicas de um passado não muito distante, mas deleitar na humildade e simpatia das suas gentes que, pela primeira vez no Japão, me trataram como ‘normal’. Pelo meu sotaque e domínio do Inglês houve alturas em que me tomaram por cidadã americana, mas sempre fiz questão de demarcar a minha existência Europeia, que lhes agradava mais, e a minha nacionalidade lusa que os levava invariavelmente ao mesmo comentário: “Visitei o Cabo da Roca!” – e perguntam-se agora vocês, como eu perguntei também: “Porquê o Cabo da Roca? O que faz alguém atravessar metade do globo, até ao nosso paraíso à beira-mar plantado, para ver o Cabo da Roca???”, respondiam-me eles cheios de respeito: “A ponta mais ocidental da Europa; o fim do continente Europeu”, e sorrio ainda hoje ao lembrar o quanto para eles este sítio se enchia de significado. O fim da terra deu-nos o nosso legado marítimo, e para um povo insular como o Japonês, os pontos que marcam os fins e os inícios são quase sagrados. Quantas destas singularidades vivi no Japão...
Esta aventura épica teve momentos de sonho e de pesadelo, até para alguém como eu, tão teoricamente consciente dos desafios da interação intercultural – a estudar precisamente isso no âmbito da minha investigação. Martins Janeira, antigo embaixador português no Japão, escreveu um dia:
o Oriente abriu novas gamas na minha sensibilidade, deu firmeza às minhas raízes e alargou a minha visão intelectual, aprofundou e alargou o meu humanismo – tornou-me mais português e mais universal. [...] Também eu, lá longe, me senti muita vez abandonado e sofri a saudade da minha terra.
Faço minhas as suas palavras, porque ao lê-las me revejo inteira nelas. Não seria quem sou hoje não fora o Oriente. No contacto com o Outro conhecemo-nos a nós próprios. Nem sempre sou capaz de ser como acho que deveria ser, tão tolerante como sinto que deveria ser, nem tão capaz de aceitar a diferença como tenho motivos para o fazer; mas se há coisa que nunca me abandona é a consciência disso mesmo. Naqueles momentos escuros em que penso ‘Porque é que são assim? Porque é que vivem assim? Porque é que não são mais como nós?’ uma parte de mim desprende-se e olha-me de fora, chamando-me à razão e demonstrando-me o caminho que ainda tenho de percorrer. E nessa consciência procuro envolver-me, aqui mesmo na minha terra, aqui no meu porto de abrigo onde as minhas raízes estão bem presas, procuro então envolver-me com o máximo de pessoas possível, sobretudo estrangeiras, para com elas poder continuar a minha caminhada. Entendo neste convívio com a diferença, o terceiro passo para alguém chegar a ser um cidadão do mundo.
Mas onde entra o bacalhau perguntam-me...Pois o bacalhau está em todos estes passos. Recentemente a terra de onde sou encheu-se de orgulho e inaugurou um aquário de bacalhaus. Na terra que se dedicou a apanhar e manipular bacalhau, levando-o à mesa de todos, existe agora um espaço para que as nossas crianças, jovens, adultos e seniores, possam finalmente admirar o fiel amigo em toda a sua viva existência. Vê-lo nadar nesse aquário, absorto na sua existência, a ser admirado por pessoas de todas as idades e nacionalidades mostra-nos como é querido e respeitado universalmente este fiel amigo. Nós, portugueses, dizemos que o bacalhau é nosso, pois, como ninguém desenvolvemos o seu uso na gastronomia, no entanto, este ‘nosso’ bacalhau é um estrangeiro nas nossas terras. Foi necessário sempre cruzar os mares para o ir buscar. O Bacalhau levou-nos a viajar e a conhecer novas culturas. Para além disso, não conheci ainda nenhum povo que não apreciasse o bacalhau – já viram algum estrangeiro partir de Portugal sem provar e deliciar-se com uma boa posta desta iguaria? Eu nunca vi. Mais caro ou mais barato, inteiro ou em postas, seco ou congelado, até do outro lado do mundo o bacalhau se encontra à venda, e ninguém o deixa de comprar por pertencer a este ou àquele sítio.
Como o Bacalhau também devemos nós tentar ser cidadãos do mundo: nadar num aquário da mesma forma que no Oceano, porque o que interessa para a nossa existência não é só o sítio de onde somos, mas aquilo que temos dentro de nós onde quer que estejamos; dividir o nosso espaço com outros bem diferentes de nós, mas respeitando que apesar de todas as nossas difereças integramos todos uma denominação comum: a de ser humano; e integrar cada cultura, não para deturpar o que nela já existia, mas para enriquecê-la com a nossa singularidade.

O caminho para ser ‘cidadão do mundo’, na minha humilde opinião, passa por: conservar e reconhecer a importância das nossas raízes aprendendo a viver em todo o lado, com a consciência de que o mais importante está sempre dentro de nós; sentir a humanidade como nossa família, respeitando e procurando compreender os outros na sua Diferença (ainda que mesmo não aceitando), porque é a diversidade que nos enriquece a todos; sentir como nossas as dificuldades que são vividas por outros seres humanos por esse mundo fora e procurar ajudá-los como pudermos. Setembro, 2013

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