terça-feira, 18 de novembro de 2014

Uma história em tudo e em todos...

O relógio começa hoje a andar para trás: precisamente daqui a um mês eu estarei num avião para fazer a viagem de regresso à Europa. A minha aventura em Timor-Leste (tão curta que ainda nem me apercebo de como está a chegar ao fim) vai levar na bagagem muitas histórias de sítios, pessoas e situações que eu nunca poderia ter imaginado...Hoje, a contar um mês para o regresso eu quero lembrar algumas dessas histórias.
            
        Um Halloween fantasmagórico...

Outubro foi um mês de loucos, a preparação do evento “World Festivities & Halloween” (dedicado a muitas festividades para celebração dos antepassados e do sobrenatural) deixou-me completamente assoberbada, pelo que me foi impossível fazer o que quer que fosse para além da organização e preparação dos materiais. No dia 31 de outubro, graças à generosidade e ajuda de muitas pessoas, até de Portugal e do Canadá, conseguimos proporcionar a estudantes do secundário umas horas diferentes: começaram por resolver um Quizz com perguntas sobre as festividades do mundo (tinham de encontrar as soluções nos cartazes expostos), depois tiveram pinturas faciais, lanternas feitas de abóboras e melancias, criação e desfile de máscaras, jogos tradicionais, enfim, foi uma manhã repleta de animação. O saldo do evento foi positivo, particularmente porque os Timorenses revelam alguma apreensão para com a tradição de Halloween, que não compreendem nem conhecem ainda bem, mas neste evento, os jovens ficaram a conhecer a diversidade de festejos que existe no mundo, para além do Halloween, e relativamente a esta celebração puderam compreender o que simboliza e o que inclui. Desconstruímos estereótipos e ajudámos os alunos a refletir também sobre a sua própria cultura, e no final, num ambiente de muito maior relaxamento e animação, todos eles se mostraram interessados em participar nas várias atividades, inclusivamente nas pinturas faciais (que tanta apreensão provocaram nos professores que os acompanhavam). Deixo-vos com um vislumbre da exposição e da decoração do evento...
 

 

            As pessoas que cruzam o meu caminho
Cada pessoa que se cruza comigo, cada rua em que caminho, cada árvore que encontro cortada, retalhada ou enrolada em arame farpado têm em si uma história, uma sequência de acontecimentos que os trouxe até este momento mas da qual eu nada sei. Foi isso que pensei numa conversa casual com um taxista particularmente simpático que me trouxe de volta a casa no outro dia. O jovem taxista, que não deveria ter mais de vinte anos eu acho, começou por perguntar de onde eu vinha, e ficou contente por saber que eu era portuguesa. No seu português incipiente contou-me que era de Baucau, mas que tinha vindo trabalhar para Díli, onde é mais fácil ser taxista. Na conversa eu disse-lhe que estudava Tétum e ele ficou muito contente, disse que também ele gostava muito de estudar, mas que não tivera tido oportunidade porque tinha ficado órfão na 3.ª classe e tivera de ir trabalhar. A história dura da sua vida ele contava-a com um grande sorriso e uma enorme descontração enquanto fumava o seu cigarro. Senti um nó. Histórias como esta abundam por aqui... todos os dias, quando espero o transporte para voltar ao bairro, estou rodeada de crianças de todas as idades, mal-nutridas e mal-vestidas, descalças e sem rumo, que circundam nos arredores do Instituto onde trabalho. Os seus risos estridentes contrastam com a agrura da condição em que vivem. As histórias de todas estas crianças e jovens lembra-me sempre as árvores enroladas em arame farpado que existem em muitos pontos de Díli: as suas existências estão confinadas a amarras que as aprisionam sem que elas pareçam aperceber-se. Riem, crescem e sobrevivem cada dia sem perceber que todos os seus movimentos são guiados e aprisionados num arame farpado invisível que traça o seu destino. Timor-Leste ainda vive aprisionado em si próprio, é urgente que se trabalhe para cortar estas amarras. Estou aqui há quase 3 meses, em breve, estarei de partida, mas estas imagens duras e dilacerantes irão comigo e permanecerão. Não sei quanto tempo, ou se algum dia, este país se libertará destas amarras feras, mas com todo o meu ser torço para que consigam, porque este processo é um de crescimento interior, nada do que nós estrangeiros digamos ou façamos vai mudar esta situação, resta-nos abrir os horizontes das pessoas com quem lidamos diariamente e esperar que cada um deles se liberte e incite os outros a fazê-lo também. 

            Matar saudades da Europa, sempre com um twist...
A palavra ‘Saudade’ sabemos bem o quão portuguesa ela é. Aquele sentimento de nostalgia, mistura de tristeza, alegria, esperança e desespero, numa amálgama que nos ata o coração. Para combater as saudades são muitos os remédios a que recorremos. Desde logo as video-chamadas para Portugal/França: nada melhor do que ouvir e ver a família e os amigos para me lembrar o calor que tenho a sorte de poder receber deles. Mas, por vezes, até isso começa a saber a pouco, é nessas alturas que temos de recorrer aos outros sentidos...
Estas últimas semanas tenho procurado sair mais de casa e do bairro, experimentado almoçar noutros locais. Uma das minhas aventuras foi no Hotel Novo Turismo (devem lembrar-se dele, pela magnífica piscina com o simpático crocodilo... podem relembrar aqui: http://timordevera.blogspot.com/2014/09/encontros-imediatos-em-lecidere.html). O chefe do restaurante é Português e a comida que serve é simplesmente divinal! O bacalhau espiritual que provei foi uma delícia para todos os meus sentidos: a apresentação é requintada, o paladar absolutamente fantástico, a textura, a cor, enfim, sem dúvida que a gastronomia portuguesa é uma das melhores do mundo!!! Ainda houve um espacinho no estômago para um Pudim Caseiro de chorar por mais! Claro que esta refeição magnífica, completa com o fantástico design do hotel, o requinte da sala de jantar, as fardas dos funcionários que eu admiro todas as vezes que lá entro, foi um momento de puro prazer. Matar saudades do que nos pertence, mesmo estando do outro lado do mundo, faz-me sentir muito grata.



Mas nem só de comida portuguesa se tem saudades... Andava há uns tempos a querer muito comer uma pizza. Na passada sexta tive oportunidade de ir jantar ao Cast Away, um bar/restaurante frequentado sobretudo por estrangeiros. Fica na marginal, mesmo de frente para a praia, tem um aspeto de bar de praia e um ambiente muito descontraído. Nessa noite deliciei-me com uma pizza Havaina acompanhada por um mojito (que estava demasiado doce porque aqui por estes lados, tudo o que seja de limão leva toneladas de açúcar! E eu esqueci-me de pedir “La masin midar” =Sem açúcar); nem o consegui acabar de tão doce que estava, mas a seguir bebi um Bacardi com sumo de lima (La midar!!!) que estava amargamente delicioso J Tinham música ao vivo nessa noite, por isso ainda tive oportunidade de relembrar algumas músicas intemporais de Jimi Hendrix ou Pearl Jam.


Estas e tantas outras são as histórias que se cruzam, entre-cruzam e emaranham nesta existência que vou vivendo aqui em Díli. A dura realidade contrasta com alguns momentos de deleite e prazer que vamos encontrando em alguns espaços. E assim vai passando o tempo: falta precisamente um mês. 

Matar saudades do Japão em Timor

Apesar de todas as limitações que encontramos em Timor existem coisas que fazem com que esta experiência se torne muito agradável. Uma das coisas que mais me tem agradado por estes lados prende-se com a possibilidade de ter acesso a uma grande variedade de culturas e gastronomias asiáticas, algo que em Portugal, ou melhor dizendo em Aveiro, nem sempre é tão possível de aceder.
Uns dias depois de ter chegado, e sabendo do meu gosto e interesse pelo Japão, sua cultura e gastronomia, um grupo de colegas decidiu levar-me a um restaurante perto do sítio onde moramos. A cerca de 10 minutos a pé (ou 30, dependendo do tráfego nas estradas que temos de atravessar em sprints no meio dos carros, motas...) do sítio onde estou a viver fica um restaurante que se chama “Wasabie”, serve comida Japonesa e Indonésia. A experiência foi muito boa, desde logo achei que os sabores, as texturas e a apresentação eram similares à verdadeira comida nipónica, não sendo aquilo que agora está na moda em Portugal, que são os restaurantes de fusão: em que nenhum prato deixa realmente perceber de onde vem ou a que cultura pertence por causa de tantas alterações/adaptações... (um aparte para dizer que respeito muito os restaurantes de fusão e que já comi muitíssimo bem em alguns deles, só me revolto contra eles quando dizem ser restaurantes de comida do país X ou Z, quando na verdade não o são minimamente! Seria o mesmo que eu abrir um restaurante italiano e servir paella!). A sopa de miso que servem, ainda que um pouco carregada, é muito boa e sempre que a como sou imediatamente transportada para as memórias da minha estadia no Japão e para as saudades de todos os meus amigos por lá. Esta sopa, à qual me foi difícil habituar quando cheguei ao Japão, por ter um sabor tão forte e intenso, tornou-se uma ‘staple food’ da minha vida e, muitas vezes, em Portugal, naqueles dias frios, suspiro por uma taça de sopa de miso para acompanhar a minha refeição.
                         

Fui mais recentemente a outro restaurante Japonês, desta vez dentro do Timor Plaza, o centro comercial de Díli, chamado Gion. Já ouvira falar muito da melhor qualidade que o Gion tinha em relação ao Wasabie, ouvi dizer que os preços eram mais elevados, mas perfeitamente de acordo com a qualidade da comida. Num dia de compras decidi entrar e experimentar. A decoração era claramente a ideia de Japonês por parte de chineses, e percebi rapidamente que eram efetivamente chineses quem geria o espaço, empregando alguns timorenses claro. Sentei-me completamente só no restaurante e comecei a preparar-me para pedir, quando, de repente, passa algo no chão de um lado para o outro, a empregada faz um gesto de olhar na direção daquilo que tinha passado e eu não estava a perceber o que se passava...pois bem, era uma ratazana, uma senhora ratazana para aí com uns 30 cm de comprimento (com o rabo) a correr pelo restaurante. O meu cérebro entrou em ‘crash’: metade gritava “Levanta-te e sai” e a outra metade, observada de perto pelos cerca de 8 funcionários, pensava, “Vá, estás em Timor, deixa-te de coisas”, e no fim deixei-me mesmo ficar e acabei por comer lá. Estar em Timor Leste é de facto uma predisposição para aceitar a vida de forma diferente (mas nunca mais volto a este restaurante... não se o puder evitar!). De qualquer forma, a comida não era má, mas não se destacava da do Wasabie. Os preços também acabaram por ser relativamente parecidos. A única coisa mais positiva foi a possibilidade de beber “Calpis”, uma espécie de refrigerante com leite que nunca encontrei fora do Japão, só por isso, valeu a pena!
Para além da comida Japonesa no Wasabie e no Gion, pude deliciar-me com um bolinho recheado de anko (pasta doce de feijão) numa loja de doces no Timor Plaza. O bolinho despertou em mim o ‘Anko Monster’ que eu sou, ai que saudades de anko!!! Finalmente, no outro dia no Supermercado Lita (talvez se lembrem dele, foi o sítio onde tive um encontro com uma senhora Japonesa e a sua lindíssima filha, que é metade portuguesa também; podem ver a história aqui: http://timordevera.blogspot.com/2014/09/encontros-imediatos-em-lecidere.html ) encontrei uma bebida que, segundo garante um amigo meu americano que vive no Japão desde que eu lá estive, é a cura perfeita para a ressaca: Pocari Sweat. Trata-se de uma bebida isotónica com um ligeiro sabor ‘alimonado’. Neste calor imenso, beber uma latinha bem fresquinha sabe-me melhor do que a muita gente sabe uma cerveja gelada.


     

É tão bom matar saudades das coisas que nos fazem viajar pelas nossas memórias, pois perto ou longe das pessoas, lugares, cheiros e tradições, são as nossas memórias que nos acompanham sempre e que nos fazem sentir ‘em casa’.

(Now in English :P )
I’m sorry for not having the time to write all in English, but a quick summary for those of you who do not speak Portuguese. Living in East Timor has given me plenty of opportunities to recall my time in Japan. There are two Japanese restaurants that I have already tried out and I am particularly fond of the one called Wasabie, which is close to where I live! I’ve also found some products like Pocari Sweat or Calpis. Last but not least, for an ‘anko monster’ such as myself, I was able to eat a snack filled with anko the other day – needless to say I was in heaven! I really miss Japan and every time I find something Japanese or am reminded of my time there, I feel extremely happy!