Viajar entre Portugal e Timor é uma viagem longa e muito
cansativa! Saí de Lisboa no dia 26 de agosto rumo ao Dubai onde parei, por uma
hora, para depois seguir para Singapura. Voei com a Emirates e adorei o
serviço. O avião, o pessoal de bordo, a comida (era deliciosa!!! e a quantidade
também agradou muito!!!), a viagem, tudo correu muitíssimo bem. Foram 7,5
horas, em que o corpo começa a sentir que já está demasiado cansado de estar na
mesma posição, o ar condicionado começa a provocar dores de cabeça, sinceramente
é preciso realmente sair do lugar, esticar um pouco para acordar os músculos
que querem ficar dormentes. Nesta viagem aproveitei o serviço de entretenimento
ao máximo: vi 3 filmes, joguei sudoku e ouvi música. Do Dubai para Singapura a
viagem foi ainda melhor :)
O avião saiu às 3 da manhã, pelo que
estava quase vazio, e eu tive a sorte de ser a única numa fila de 3 lugares.
Assim, deu para dormir mais à vontade, e entre acordada e a dormir, as 7 horas
passaram bem mais rapidamente. Foi por volta das 15h que aterrei no Changi de
Singapura.
Saí pelo serviço de controlo de passaportes e fui para o
Crowne Plaza, onde fiquei a pernoitar. Um sonho de hotel, um sonho de quarto,
com uma vista de tirar a respiração...enfim, o paraíso na terra foi meu por uma
tarde e uma noite.
Aproveitei para me refrescar
e saí para conhecer a cidade. Como o tempo era pouco e eu nada tinha pesquisado
sobre a cidade, decidi jogar pelo seguro e comprei um bilhete de viagem
turística de autocarro (aqueles double-deckers, com a parte superior aberta).
Fui ouvindo as explicações enquanto circulava por uma das cidades mais
verdejantes, limpas, organizadas e modernas em que já estive. Os arranha-céus,
obras magníficas de arquitetura moderna, combinam-se com edifícios vitorianos e
outros modelos de construção da Europa Antiga, numa combinação de passado e
futuro em perfeita harmonia.
A ligar estes dois tempos, um mar de verde cobria os
passeios, ensombrava as ruas, trepava pelas muros e deitava-se sobre as margens
do rio. Nunca tinha visto uma cidade tão moderna com tanta natureza, com tanto
verde, com tantos pássaros e flores. [IMG 1085] Apaixonei-me por Singapura e
hei-de lá voltar, até porque não andei no Flyer (a roda gigante - ainda maior
do que o London Eye -, o meu 'calcanhar de Aquiles', já que quando vejo uma,
tenho de andar nela!!!).
Voltei para um jantar no hotel, e deliciei-me
com um jantar de sushi e salteados de vegetais, cajus e galinha. Mas o sushi
era absolutamente extraordinário. Fiquei rendida. Tudo neste dia foi
absolutamente perfeito e ainda bem, porque eu já sabia que a perfeição iria dar
lugar a algo muito diferente.
Da noite para o dia, da água para o vinho, do paraíso para o
Caos. Foi assim que aconteceu de 27 para 28 de agosto. O avião da SilkAir
trouxe-me para Díli (neste já não havia entretenimento individual a bordo, nem
auscultadores para ouvir o que quer que fosse, era menos confortável, mas o
staff igualmente simpático e a comida também boa.
Aproximamo-nos de Díli e eu começo a pensar como
será o aeroporto, já que não o consegui sequer vislumbrar. Começo a ver pela
janela pavilhões que me lembram casernas de quartéis militares à direita, e
bananeiras por todo o lado. No meio a pista, em redor só terra e depois só
mato. Lá no meio, vislumbra-se uma casa de rés-do-chão com uma fila de mastros
de bandeiras em frente e duas entradas arqueadas onde se lia ‘Bem-Vindo a Timor’.
Não quis acreditar, nunca tinha visto nada igual. Para
sairmos veio uma escada com rodas empurrada por trabalhadores. Depois começou a
confusão das filas. Espero aqui, mas há gente ali, só vejo gente a falar com um
funcionário, há dinheiro a ser trocado e eu não percebo o que se passa. Na
parede um sinal que diz que os portugueses passam diretamente para o controlo
de passaporto, entro, a medo. Chego à frente, o Sr. diz que precisa de um
papel, eu não tenho nada, ele dá-mo e manda-me ir preencher. Volto à fila,
finalmente ele aceita deixar-me passar. Encontro a minha mala que veio sozinha
à minha frente e vou para sair. Mandam-me desviar e pôr a mala noutro lugar.
Novamente me pedem um papel. Digo que não sei que papel é, eles insistem. Corro
todos os documentos que trago comigo, não são esses. Começo a ficar mesmo
preocupada, já tremo e só penso que não vou conseguir chegar ao pé das pessoas
que me esperam do lado de fora. Um filme! Finalmente o Sr. volta a dar-me outro
papel, tenho de preencher, ele felizmente fala português! E assim consigo sair.
Algumas pessoas aglomeradas numa entrada, quase lembra a entrada de um
supermercado, e lá encontro quem me esperava. Começa a saga de andar de carro
em Díli: regras de trânsito, não existem, ou ninguém se importa. Há motas,
carros e gente por todo o lado e em todas as direções. Agarro-me ao puxador
porque em 5 minutos podia ter estado envolvida em várias colisões...enfim, o
caos. Chego à residência! Já tenho teto, o resto será bónus. Passo a tarde a
circular numa das carrinhas de transporte com um colega. Ele ajuda-me a comprar
um cartão de telemóvel na TT (Timor Telecom) e 'pulsa' (ou seja: saldo!).
Depois, pede que nos levem às compras. Vamos pela marginal. Um sítio todo
arranjado para a Cimeira da CPLP que aconteceu cá recentemente. Está bonito;
faz lembrar o Brasil (nas imagens que vejo na tv). Para chegar ao supermercado
temos de atravessar a rua. Há carros e motas em magotes em todo o lado, a
deslocar-se a grande velocidade. Vislumbro uma passadeira ao longe, mas ele
diz-me que é escusado. É para atravessar, estilo 'salve-se quem puder'. Acho
que não me consigo habituar a atravessar as ruas, mas veremos. De volta à
residência começam as histórias. Lanche com mais dois colegas e muitas
histórias de bichos, assédios, acidentes e afins...Seria uma praxe? Não sei,
acho que vou ter de descobrir por mim.
São 9 horas de diferença para com Portugal, a
viagem foi extremamente longa, mas como antes, continuo a conseguir dormir bem
e sinto-me com energia durante o dia. Dormi descansada e confortável, na
segurança da rede que pendurei por cima da cama. Apesar das histórias, ainda
não foi hoje que vi nenhuma 'Teki' nem nenhum 'Toké' (perdoem, mas ainda não
sei se é assim que se escrevem), e estou muito contente por isso. Hoje foi dia
de estar no INFORDEPE (Instituto Nacional de Formação de Docentes e
Profissionais da Educação), onde vou estar a dar formação, e de fazer mil e uma
coisas: as burocracias que implica assinar contratos e afins. Voltei para casa
para almoçar com a minha colega de casa e foi altura de eu ser realmente
recebida por Timor.
Durante o almoço, no meio de muita conversa,
pareceu-me ver água no chão da sala. Começámos a ver: inundação em casa! E a
água da inundação? De esgoto, claro!
A minha aventura começou oficialmente. Timor vai ser duro, eu
vou ter de me adaptar a muitas coisas. Já percebi que tenho receio de muita
coisa neste momento, mas nem por isso ando em sobressalto. Os colegas estão a
ajudar, o quarto já o sinto mais meu, o trabalho não é nada que eu não
estivesse à espera (ainda que vá ser desafiante a muitos níveis)...enfim, é uma
nova vida que começa e eu terei de a aprender a viver. Hoje, sinto-me bem,
amanhã veremos ;)
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